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Como revelação do sacerdócio de junho de 1978 mudou vida e futuro da família Martins

Élder James E. Faust e sua esposa, a irmã Ruth Faust à esquerda, com Helvécio Martins e sua família, na dedicação do Templo de São Paulo, Brasil, em novembro de 1978. Crédito: Cortesia da Biblioteca da História da Igreja
Presidente Helvécio Martins e irmã Rudá Martins, da Missão Brasil Fortaleza em 1988. Ele presidiu a missão de 1987 até seu chamado em 1990, como membro do Segundo Quórum dos Setenta da Igreja.
Élder Helvécio Martins. Crédito: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias
Helvécio Martins e sua esposa, Rudá Martins, com sua família. Crédito: Cortesia da Biblioteca da História da Igreja
Élder Marcus Martins, à esquerda, um dos primeiros afrodescendentes a servir como missionário de tempo integral, deixa uma capela com familiares e um ex-missionário. Foto de 11 de novembro de 1978, pelo Deseret News. Crédito: Arquivos do Deseret News
Élder Marcus Martins como missionário na Missão Brasil São Paulo Norte em abril de 1980.
Foto de Marcus Martins, um dos primeiros missionários afrodescendentes a servir como missionário de tempo integral. Foto publicada no Deseret News de 16 de setembro de 1978. Crédito: Cortesia da Biblioteca da História da Igreja
Mirian e Marcus Martins. Crédito: Scott Taylor
Presidente Marcus Martins e sister Mirian Martins em 2012, como presidente e companheira da Missão Brasil São Paulo Norte 2011-2014.
Élder Helvécio Martins com sua esposa, Rudá, fotografados em Salt Lake City no ano de 1990. Crédito: Arquivo do Deseret News

Nota do editor: Este artigo foi publicado originalmente pelo Church News (em inglês) em 7 de junho de 2018. Esta é uma versão atualizada e publicada pela primeira vez para nossos leitores de língua portuguesa.

Élder Helvécio Martins com sua esposa, Rudá, fotografados em Salt Lake City no ano de 1990.
Élder Helvécio Martins com sua esposa, Rudá, fotografados em Salt Lake City no ano de 1990. | Crédito: Arquivo do Deseret News

SÃO PAULO, Brasil — Era início de junho de 1978 no Rio de Janeiro, Brasil, e Helvécio Martins e sua família eram membros batizados da Igreja havia quase cinco anos. O bem relacionado executivo financeiro da Petrobrás e professor adjunto em uma universidade estava ajudando no trabalho de comunicação pública para o templo de São Paulo, que seria dedicado em breve, o primeiro templo da Igreja não apenas no Brasil, mas em toda a América do Sul.

Dada sua ascendência africana, Martins jamais esperava colocar os pés dentro, devido às restrições na época aos afrodescendentes em questões do sacerdócio e templo.

Um ano antes, os Martins estavam entre um grupo de santos brasileiros que realizara um passeio pelo templo ainda em construção. Quando ele e sua esposa, Rudá, perceberam que estavam no que seria a sala celestial do templo, pararam, acreditando que aquela seria a única ocasião que estariam juntos naquele local sagrado.

Eles se abraçaram e choraram, logo acompanhados de lágrimas por outros percebendo o momento singular e o misto de emoções.

Enquanto isso, o filho mais velho dos Martins, Marcus, tinha 19 anos em junho de 1978. Seus amigos da Igreja estavam servindo missão nessa idade, mas a restrição do sacerdócio impedia que isso fosse uma opção para ele. Em vez disso, ele estava noivo para se casar em breve com Mirian Abelin Barbosa, sua amiga desde a adolescência e missionária retornada da Missão Brasil São Paulo Sul.

Élder Marcus Martins como missionário na Missão Brasil São Paulo Norte em abril de 1980.
Élder Marcus Martins como missionário na Missão Brasil São Paulo Norte em abril de 1980.

Tudo isso mudou com um telefonema de um amigo da família em Utah, compartilhando notícias chocantes. A Igreja havia anunciado naquela data, 9 de junho de 1978, uma revelação estendendo o sacerdócio a todos os membros dignos do sexo masculino com 12 anos ou mais, independentemente de raça ou cor.

A reação inicial da família foi de descrença, pensando que poderia ser uma farsa. Então veio a confirmação.

“De repente, houve uma enxurrada de emoções por causa das possibilidades”, disse Marcus Martins, agora professor de Educação Religiosa da BYU-Havaí, em uma entrevista ao Church News. “A ideia de que íamos entrar no templo e receber nossas ordenanças era um sentimento de gratidão muito grande.

“E foi assim que eu também me senti, porque agora eu poderia me casar com minha noiva no templo, e isso era algo que eu nunca tinha sonhado antes.”

Helvécio e Marcus Martins receberam o Sacerdócio Aarônico e foram ordenados sacerdotes. O irmão Martins perguntou se eles poderiam participar da ordenança do sacramento e assim, ele distribuiu o sacramento, enquanto Marcus o abençoou. Os sumos sacerdotes da ala reconheceram o momento histórico e dispensaram os diáconos de seus deveres normais para que os élderes pudessem se juntar ao irmão Martins passando o pão e a água. Os que participaram da ordenança foram levados às lágrimas, e a congregação também chorou.

Mirian e Marcus Martins.
Mirian e Marcus Martins. | Crédito: Scott Taylor

Uma semana depois, Helvécio e Marcus Martins foram apoiados para receber o Sacerdócio de Melquisedeque, conferido primeiramente ao pai, que por sua vez prestou as honras ao filho.

Marcus Martins logo enfrentou uma enxurrada de perguntas de membros e líderes da Igreja: agora que ele possuía o sacerdócio, ele não deveria considerar servir uma missão? Mas o casamento estava agendado para dali a algumas semanas, com um contrato assinado para um apartamento e móveis sendo comprados.

Sentir a pressão para considerar o serviço missionário foi acompanhada pelas críticas de parentes e amigos não membros, uma vez que ele finalmente decidiu adiar o casamento e servir como missionário. A reclamação deles: ele estava desistindo cedo demais do casamento e tornando as coisas difíceis para sua noiva e família.

Para ajudar a aliviar as pressões, seus líderes de estaca trabalharam com funcionários do Departamento Missionário e aceleraram seu chamado missionário para que Marcus pudesse deixar o Rio para o Centro de Treinamento Missionário do Brasil — na época uma casa adaptada no centro de São Paulo — e depois de uma semana, começar seu serviço na Missão Brasil São Paulo Norte. Ele foi o primeiro missionário afrodescendente a servir após a revelação anunciada.

Logo após a dedicação do templo de São Paulo, em 30 de outubro de 1978, Helvécio e Rudá Martins entraram para fazer suas próprias ordenanças e passaram um tempo na sala celestial, onde apenas um ano antes estavam pensando que nunca poderiam colocar seus pés lá dentro. Eles tiveram seus dois filhos mais velhos na época, Marcus (ainda um missionário) e Marisa, selados a eles; dois outros filhos foram posteriormente adicionados à família.

Presidente Helvécio Martins e irmã Rudá Martins, da Missão Brasil Fortaleza em 1988. Ele presidiu a missão de 1987 até seu chamado em 1990, como membro do Segundo Quórum dos Setenta da Igreja.
Presidente Helvécio Martins e irmã Rudá Martins, da Missão Brasil Fortaleza em 1988. Ele presidiu a missão de 1987 até seu chamado em 1990, como membro do Segundo Quórum dos Setenta da Igreja.

Helvécio Martins logo foi chamado como secretário executivo da estaca e mais tarde como conselheiro na presidência, após a divisão da mesma. Mais tarde, serviu como bispo e presidente da Missão Brasil Fortaleza antes de ser chamado em 1990 para o Segundo Quórum dos Setenta. Reconhecido como a primeira Autoridade Geral afrodescendente da Igreja, serviu como Setenta por cinco anos, foi desobrigado em 1995, vindo a falecer em 2005, aos 74 anos.

Após completar sua missão em 1980, Marcus Martins voltou para casa e foi selado a Mirian no Templo de São Paulo Brasil. Eles são pais de quatro filhos. Ele serviu como bispo duas vezes, como sumo conselheiro sete vezes e como presidente da mesma Missão Brasil São Paulo Norte em que serviu quatro décadas antes.

Para ele, a revelação de 1978 não é apenas sobre afrodescendentes recebendo o sacerdócio, mas sim uma confirmação dos princípios bíblicos de que todos são iguais perante Deus.

“A revelação reafirma — agora que vemos Presidente Nelson defendendo o tema ‘Sejam Um’ — que o que traz esta unidade é o reconhecimento de que somos todos iguais”, disse ele. “Não podemos ser um se pensarmos em nós mesmos como diferentes racial, linguística, étnica ou economicamente, ou qualquer outra coisa. Não. Temos que nos ver como iguais, filhos e filhas de Deus.”

Leia também: Brasil, 1978: Como uma revelação e um templo mudaram tudo

Presidente Marcus Martins e sister Mirian Martins em 2012, como presidente e companheira da Missão Brasil São Paulo Norte 2011-2014.
Presidente Marcus Martins e sister Mirian Martins em 2012, como presidente e companheira da Missão Brasil São Paulo Norte 2011-2014.
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