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Ser um discípulo é mais do que ser apenas um seguidor

Na época de Jesus, a relação entre um discípulo e um mestre era de profundo comprometimento e lealdade, tanto do mestre quanto do discípulo.

Em seu discurso de 2022 aos jovens adultos da Igreja, Presidente Russell M. Nelson implorou ao público que compreendesse sua verdadeira identidade. Embora tenha discutido vários rótulos que podem descrever aspectos de nossa identidade, ele enfatizou que “nenhum identificador deve remover, substituir ou ter prioridade sobre ... três atribuições duradouras: “filho de Deus”, “filho do convênio” e “discípulo de Jesus Cristo.’”

Ele os descreveu como “três identificadores primordiais e imutáveis”. Além disso, ele ensinou que “qualquer identificador que não seja compatível com estas três atribuições básicas acabará por decepcioná-los. Outros rótulos vão desapontá-los com o tempo porque não têm o poder de conduzi-los à vida eterna no reino celestial de Deus.”

Embora nosso estudo do Novo Testamento em 2023 inclua ensinamentos sobre todos estes três identificadores eternos, o presente artigo se concentrará no terceiro identificador, o de “discípulo de Jesus Cristo”.

Esta pintura retrata os pescadores reunidos e cuidando de suas redes, com Cristo acenando para eles, lhes fazendo a grande pergunta sobre prioridades. O serviço do evangelho dá a todos nós a oportunidade de atender à ordem de Cristo—de deixarmos nossas obrigações diárias e ministrarmos a nossos irmãos.
Esta pintura retrata os pescadores reunidos e cuidando de suas redes, com Cristo acenando para eles, lhes fazendo a grande pergunta sobre prioridades. O serviço do evangelho dá a todos nós a oportunidade de atender à ordem de Cristo—de deixarmos nossas obrigações diárias e ministrarmos a nossos irmãos. | A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

O discipulado é o foco principal do ministério de Jesus, mas o que significa ser um discípulo no Novo Testamento? A palavra inglesa “disciple” [discípulo] é uma tradução da palavra grega “mathētēs”, que basicamente se refere a um aluno que estuda com um mestre professor. Uso o termo “mestre professor” em um sentido semelhante ao que hoje às vezes nos referimos a um mestre encanador, ou mestre carpinteiro: alguém que tem experiência em um assunto ou habilidade que vem através de treinamento e certificação adicionais. Este treinamento adicional os qualifica para ensinar seu ofício a outras pessoas.

Na época de Jesus, a relação entre um discípulo e um mestre era de profundo comprometimento e lealdade, tanto do mestre quanto do discípulo, com o objetivo de que um dia o último pudesse se tornar um mestre professor. Às vezes, um discípulo pode ser descrito como um aprendiz. Inerente nesta relação entre professor e aluno está o reconhecimento de que o mestre professor tinha conhecimento e experiência que o discípulo valorizava e buscava alcançar.

O Novo Testamento frequentemente distingue os discípulos dos membros da multidão, que seguiram Jesus por causa dos milagres que Ele realizou. Os discípulos certamente eram seguidores de Jesus, mas nem todos os seguidores eram discípulos. Multidões seguiram Jesus depois que Ele ensinou o Sermão da Montanha (Mateus 8:1); eles O seguiram buscando ser curados (Mateus 12:15; 14:13-14­; 20:30-34; João 6:2), ou porque Ele poderia alimentá-los (João 6:26), mas não há nenhuma indicação de que o compromisso destes indivíduos tenha durado mais do que a circunstância imediata. Em outras palavras, seu interesse por Jesus geralmente não chegava ao nível de comprometimento que acompanha o discipulado.

Jesus estendeu dois convites principais para as pessoas se tornarem Seus discípulos. Ele os convidou dizendo “segue-me” (ver Marcos 2:14; Mateus 16:24; 19:21; Lucas 18:22; João 1:43; 12:26) e também os convidou dizendo “vinde a mim” (Mateus 11:28–30). Cada um desses convites tem ênfases ligeiramente diferentes.

Cristo chama Pedro e André para segui-Lo, nesta pintura de Harry Anderson, “Calling of the Fishermen” [Chamado dos Pescadores].
Cristo chama Pedro e André para segui-Lo, nesta pintura de Harry Anderson, “Calling of the Fishermen” [Chamado dos Pescadores]. | A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

Ao estender o convite “vem e segue-me” a Pedro, André, Tiago e João, no texto em grego, ou “segue-me” na versão do Rei Jaime, Ele os estava convidando a embarcarem em um novo caminho de vida (Mateus 4:18–22). Eles responderam imediatamente com a disposição de deixarem para trás barcos, redes e até mesmo Zebedeu, que representavam sua antiga vida. Como pai de Tiago e João, Zebedeu era um símbolo do poder que lhes deu a vida mortal, e o barco e as redes eram símbolos de como essa vida era sustentada.

O convite de Jesus foi, portanto, um chamado para abandonarem a vida que eles conheciam e embarcarem em uma vida de discipulado, a qual exigiria um novo conjunto de prioridades e responsabilidades, com foco em uma compreensão eterna da vida. Foi um chamado para fazer as coisas que Jesus fez: pregar, porque “é chegado o reino dos céus” … curai os enfermos, purificai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios” (Mateus 10:7–8). Em outras palavras, foi uma vida dedicada a pregar as boas novas da mensagem de Jesus e a ministrar outros em suas necessidades.

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Esta vida de discipulado certamente trouxe bênçãos de crescimento e refinamento, mas teve seus custos. Jesus ensinou que os discípulos precisavam colocar Deus em primeiro lugar em sua vida e amá-Lo de todo o coração, entendimento, alma, força e mente (ver Mateus 22:37; Marcos 12:33; Lucas 10:27), o que incluía guardar Seus mandamentos (ver João 14:15), colocando a vontade de Deus acima da própria (Mateus 16:24), e tomar sua cruz diariamente (Lucas 9:23).

Dois estudiosos observaram que “os discípulos — e implicitamente todos os crentes — não devem observar passivamente seu Senhor e o que Ele faz. Eles não são espectadores sentados assistindo da arquibancada” (W.D. Davies e Dale C. Allison, “A Critical and Exegetical Commentary on the Gospel According to Saint Matthew). Discípulos são aqueles que não se contentam em assistir do lado de fora. Seu compromisso com o Salvador significa que estão ativamente engajados no reino, mesmo que seja inconveniente ou difícil, ou mesmo que não entendam totalmente o que Jesus está pedindo. Por exemplo, quando o anjo Gabriel disse a Maria que ela seria a mãe do Filho de Deus, mesmo sem talvez saber tudo o que lhe seria exigido, ela respondeu com fé e declarou: “Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra” (Lucas 1:38).

Discípulos são aqueles que não se contentam em assistir do lado de fora. Seu compromisso com o Salvador significa que estão ativamente engajados no reino, mesmo que seja inconveniente ou difícil...

Em outro lugar, Jesus ensinou que, a menos que as pessoas estejam dispostas a “odiar” sua família, elas “não podem ser meus discípulos” (Lucas 14:26). A linguagem aqui parece dura, especialmente porque as famílias são uma parte importante do plano eterno de Deus. Mas aqui, Jesus parece usar intencionalmente uma linguagem que irá capturar a atenção de seu público. Ele está usando a família como símbolo daquilo que é mais precioso para nós. Ele está ensinando que o discipulado, em última análise, requer uma disposição das pessoas para consagrarem a Deus toda a sua alma, incluindo as coisas que elas mais valorizam. Ele segue esse ensinamento com duas parábolas que convidam seu público a avaliar seu compromisso com o discipulado, considerando o custo que se espera deles (Lucas 14:28–32). Jesus então conclui explicando: “Assim, pois, qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:33).

A história do jovem rico é um lembrete de que algumas pessoas, como descreve o falecido Élder Neal A. Maxwell, do Quórum dos Doze Apóstolos, “retêm uma porção” [em inglês] de sua consagração (Mateus 19:16–22); não está disposto a se comprometer totalmente com o custo do discipulado. Em vez de ver este custo como algo negativo, Élder Ronald A. Rasband, do Quórum dos Doze Apóstolos, o descreve como o “alegre ‘fardo’ do discipulado” (conferência geral de abril de 2014).

Cristo fala com o jovem governante rico enquanto os apóstolos observam ao fundo, conforme retratado nesta cena dos Vídeos da Bíblia.
Cristo fala com o jovem governante rico enquanto os apóstolos observam ao fundo, conforme retratado nesta cena dos Vídeos da Bíblia. | A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

Além de convidar as pessoas a segui-Lo, Jesus também convida aqueles que “estão cansados e oprimidos” a se tornarem discípulos vindo a Ele, uma frase que Élder Jeffrey R. Holland, do Quórum dos Doze Apóstolos, ensinou como “a chave para a paz e descanso que procuramos” (conferência geral de abril de 2006). Este convite não está focado em pessoas agindo como Jesus. Em vez disso, é focado em elas virem a Ele para que Ele possa ministrá-los em suas necessidades.

O texto grego sugere que Jesus está convidando todos os que se sentem cansados ou oprimidos. Ele os convida a tomarem Seu jugo sobre eles para que possa ajudá-los a carregarem seus fardos. Ele também os convida a aprenderem sobre Ele, o que pode ser entendido tanto para aprenderem sobre Ele quanto para aprenderem Dele. Ele lhes assegura que Seu “jugo é suave e [seu] fardo é leve” (Mateus 11:28–30). Este é um convite para experimentar Seu ministério pessoal, de uma forma que só está disponível através do Filho de Deus que, por meio de Seu sacrifício expiatório, age como um Salvador, um Redentor e um Capacitador para nós. Embora haja custos para o discipulado, esses custos nunca devem ofuscar o valor inestimável deste dom de discipulado.

Falando a respeito da Bíblia, o Profeta Joseph ensinou: “Aquele [ou aquela] que a ler com mais frequência [em inglês] gostará mais dela” (Carta à Igreja, por volta de março de 1834, Documentos de Joseph Smith). Ao aproveitarmos outra oportunidade para estudar o Novo Testamento no próximo ano, espero que todos possamos aprender mais sobre e com o Salvador e, assim, experimentarmos mais profundamente a alegria que advém do comprometimento de nosso discipulado. Ser conhecido como discípulo de Jesus Cristo é, afinal, um dos rótulos mais importantes que podemos obter.

— Gaye Strathearn é reitora adjunta de Educação Religiosa da Universidade Brigham Young.

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