MAPUTSOE, Lesoto — Após um serviço memorial realizado em 16 de julho, em memória das vítimas de um trágico acidente envolvendo vários veículos que tirou a vida de 15 pessoas, incluindo seis moças e quatro líderes da Igreja a caminho de uma atividade das Moças do distrito na nação localizada no sul da África, sete adolescentes sobreviventes se reuniram sob o sol do inverno africano.
Seus nomes podem não ser tão comuns entre os membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias quanto Maria, Ana ou Rebeca, mas sua história de fé em Jesus Cristo como seu Salvador e em Deus como seu Pai Celestial, não é menos inspiradora do que qualquer outra encontrada nas escrituras antigas.
Mpho Anicia Nku, de 14 anos, resume o que elas aprenderam desde o acidente há um mês atrás, com um sentimento poderoso: “Confie em Jesus e sempre O busque, porque através Dele você encontrará paz, e Ele o ajudará no processo de cura.”
Preparando-se para se unirem às moças do país
Nos meses que antecederam o sábado, 21 de junho, as moças do Ramo de Maputsoe, um dos oito ramos do Distrito de Maseru Lesoto, se prepararam para uma atividade anual com outras moças santos dos últimos dias de seu país.
Lesoto, onde a Igreja tem um único distrito, é um dos três países no mundo que é completamente cercado por um único outro país. Neste caso, a África do Sul circunda o Reino de Lesoto. É um país semelhante em tamanho à Bélgica, ou um pouco maior do que o estado de Alagoas no Brasil. Junho é parte do inverno do país e deixa a vegetação na área seca, amarela e sedenta pelas chuvas da primavera. Seus quase 2,5 milhões de habitantes aguardam ansiosamente a estação da primavera e temperaturas mais quentes.
Com junho sendo um mês mais fresco anualmente, as moças dos oito ramos do distrito viajam de todas as partes do país para se reunirem na capital, Maseru, a fim de aprenderem sobre o Salvador, de se envolverem com outras pessoas que compartilham as mesmas crenças, e de se divertirem antes de voltarem para casa.
Mas a atividade deste ano seria lembrada por algo além das ótimas aulas e atividades divertidas. Este ano seria marcado por uma tragédia.
Qolesoe Mokhosi, de 17 anos, é uma das quatro jovens do Ramo de Maputsoe. O presidente do ramo, presidente Moeti Daniel Molateli, a incentivou a convidar o maior número possível de amigas para se registrarem para a viagem a Maseru, a mais de 80 quilômetros ao sudoeste.
Em resposta ao convite de seu líder, Qolesoe foi persistente. 20 jovens, incluindo ela mesma, compareceram naquela manhã de sábado para a viagem de duas horas de ônibus pela estrada de duas pistas.
Como era típico para o grupo, elas cantavam músicas enquanto carregavam o ônibus e esperavam pela hora de partir. Elas têm hinos e canções favoritas dos álbuns do tema de Jovens da Igreja. E elas apreciaram poder cantar juntas na pequena capela onde se encontraram naquele dia.
“Talvez eu não devesse tê-las pressionado tanto para virem“, disse Qolesoe, refletindo sobre aquelas semanas que antecederam a atividade. “Talvez elas ainda estivessem aqui.”
Um acidente se torna um catalisador
As 20 jovens embarcaram no pequeno ônibus com dois motoristas e sete líderes. Entre os líderes estavam o presidente Molateli e sua esposa, Makeketso Mokhethi Molateli.
Enquanto dirigiam durante as horas da manhã em direção a Maseru, um carro vermelho viajando na direção contrária, tentou ultrapassar outro automóvel e entrou na faixa ocupada pelo ônibus. Tanto o espaço quanto o tempo foram insuficientes para evitar a colisão dos veículos.
Os detalhes do que exatamente aconteceu talvez nunca fiquem claros. Mas em segundos, os veículos em movimento colidiram, saíram da estrada e explodiram em chamas.
O presidente e a irmã Molateli morreram no acidente, junto com Lieketso Molaoa, uma líder das Moças de 24 anos. Nthabeleng Lebina, 16 anos; Omphile Denise Lephakha, 16 anos; Masechaba Julia Komane, 15 anos; Lerato Lets’ase, 14 anos; e Nthabiseng Motabola, 13 anos, também morreram no acidente. Realeboha Matsau, 17 anos, ficou gravemente ferida e foi levada para um hospital em Bloemfontein, na África do Sul. Nthabiseng Posholi, outra líder de 24 anos, foi levada para um hospital em Joanesburgo, também na África do Sul. Nem Matsau nem Posholi retornaram para casa, e faleceram nos respectivos hospitais.
Um mês depois, Thato Lephakha, de 13 anos, e Mamothobi Lydia Mothebe, de 12, ainda estão no hospital de Joanesburgo. Moliehi Selebeli, de 11 anos, está no hospital de Bloemfontein. Phokotsana Alphoncina Rakuoane, uma líder adulta, está no hospital de Leribe, Lesoto. Qolesoe, uma jovem entusiasmada que convidou suas amigas para se juntarem à atividade, e Mapule Joyce Takane, uma líder adulta, estão no hospital de Maseru.
As 11 restantes dos 17 sobreviventes do acidente estão em casa, se recuperando de vários ferimentos sofridos no acidente. Ao todo, 15 pessoas morreram em decorrência da colisão.
‘Quem sou eu para lutar contra Deus?’
“Estou com raiva do motorista do carro vermelho? Não”, disse Mathepelo Allysa Selikane, de 17 anos. “Mas talvez eu esteja um pouco com raiva de carros vermelhos.”
Apesar da dor indescritível de perder amigos e líderes em um acidente assim, Mathepelo se sentou no meio de suas colegas que sobreviveram com um sorriso radiante, um pouco de humor e um tipo de felicidade tranquila por trás de seus olhos cheios de lágrimas.
À esquerda de Mathepelo estava Nthabiseng Morasenyane. Nthabiseng, de 17 anos, se move lentamente com a ajuda de um andador. Ela usa um colete, tipo espartilho, ao redor do corpo para ajudar sua coluna a se recuperar do acidente. Ela disse que os médicos preveem que ela precisará dele por mais uns seis meses.
“Não estou me sentindo bem,” admitiu Nthabiseng. “Mas o que sei é que isto faz parte da vida. Não consigo acreditar no que aconteceu, mas aconteceu.”
Ao se lembrar dos eventos da manhã, Nthabiseng disse que se lembra das jovens recitando juntas o tema das Moças. Elas estavam ansiosas para recitá-lo com todas as outras moças de seu distrito em Maseru.
Durante o acidente, algumas das moças acabaram em cima dela. Ela estava preocupada que não conseguiria sair se elas não saíssem primeiro de cima dela, mas depois considerou isso uma bênção porque a protegeram das chamas. Embora suas costas estejam feridas, ela não tem o mesmo nível de queimaduras que muitas das outras têm.
Sentada com os braços cruzados e se afastando de qualquer atenção, Malehlohonolo Adel Sekoala, de 14 anos, ouviu e observou as outras no grupo conversarem. Seu anel Strive to Be refletia a luz do sol, enquanto ela se mexia para ficar confortável.
“É difícil explicar como me senti ao não ver todas as minhas amigas saírem do ônibus que estava pegando fogo”, disse ela. “Doeu — muito.”
Essa dor foi ecoada pelo grupo. Foi uma dor física do acidente e do incêndio subsequente. Mas também foi a dor de perder amigos.
“Eu sei que Deus tem um plano, e quem sou eu para lutar contra Deus?” Malehlohonolo disse. Embora esse conhecimento seja difícil de se aceitar neste momento, ela disse que é reconfortante saber que verá suas amigas novamente um dia.
Mathepelo entrou na conversa para acrescentar que haviam falado naquela manhã sobre amar uma frase do tema das Moças.
“Somos ensinadas que somos filhas de Deus com uma natureza divina e um destino eterno“, disse ela.
Como um pêndulo, a conversa constantemente oscilava enquanto o grupo conversava uma com a outra. Elas têm testemunhos de muitos princípios do evangelho. São cheias de gratidão. Estão sofrendo. Estão cheias de amor. Têm pesadelos. Elas oram. Encontram conforto nas escrituras. Elas choram. Elas anseiam.
Muitas do grupo se veem todos os dias. Muitos desses dias incluem algum tempo juntas na capela do ramo. Elas cantam juntas. Elas estudam as escrituras. Elas contam histórias.
Makeresemese Mofokeng, de 16 anos, disse que ainda pensa em ter sido retirada do fogo por policiais que chegaram à cena. Como outros, é difícil para ela explicar como ela saiu do ônibus.
Mathepelo disse que parecia que elas foram empurradas para fora do ônibus. Como foram empurradas? Por quem? Elas não sabem. Mas compartilharam sentimentos semelhantes sobre não saberem como acabaram fora do ônibus, ou quando isso aconteceu.
Tlhonolofatso Alinah Morasenyane é a irmã mais nova de Nthabiseng, com 12 anos. Ela disse que se sentiu protegida no momento do acidente. Por isso, ela diz se sentir grata. Mas ela também disse que se sente triste ao pensar naquelas amigas que não verá novamente na igreja.
Mpho disse que seu maior sentimento tem sido de solidão pela perda de suas amigas.
Sentindo conforto através da música sacra
Essa solidão toca profundamente Setso’ana Selebeli, que sente falta de ouvir sua irmã hospitalizada, Moliehi, cantando em casa.
“É difícil viver em casa sem ela”, disse Setso’ana. “Eu me lembro de tudo que ela faz. Ela adora cantar, mas agora ela não está aqui, então ninguém está cantando para nós.”
Embora possa haver uma ausência do canto da irmã em casa, o grupo ainda gosta de cantar músicas de louvor quando estão juntas.
Ao final de sua entrevista após o serviço memorial, as sete jovens que conversaram com o Church News optaram por cantar uma música antes de terminarem. Elas escolheram o hino “Secret Prayer” [Sagrada Oração] e cantaram todos os quatro versos. Elas cantaram com grande reverência e harmonia, condizentes com o momento, com lágrimas indo e vindo.
Cantar música sacra foi um tema recorrente ao conversar com as moças no serviço memorial e no hospital de Maseru.
Mapule Joyce Takane e Qolesoe compartilham um quarto no hospital em Maseru. A líder e a jovem também encontraram consolo em canções. A música favorita delas durante essas quatro semanas de recuperação das queimaduras, vem do álbum do tema dos jovens de 2024. Chama-se “Beloved” [Abrigo]. Elas não precisam de um aplicativo para as palavras ou a música. Ambas começaram a cantar, assim que uma mencionou a canção para a outra.
Que existe algo em mim que é divino,
E vai sempre estar comigo.
Se me sinto só,
É Sua voz
Que me lembra
Que existe algo em mim que é divino
E vai sempre estar comigo.
Se me sinto só,
És o meu abrigo, abrigo.
Ajudar umas à outras no hospital
Takane e Qolesoe têm uma diferença de idade de 10 anos, mas compartilharão para sempre um vínculo único, após passarem um mês juntas em seu quarto, em um hospital de Maseru.
O caminho delas para a recuperação completa envolve médicos e enfermeiras trocando muitos curativos em um cronograma rigoroso. Quando os curativos são removidos, Qolesoe diz que aprecia a liberdade temporária de movimento. Mas as feridas ainda estão cicatrizando e doem quando expostas ao ar. Quando novos curativos são enrolados em torno de suas mãos e braços, ela perde o movimento dos dedos individuais, mas sua pele em recuperação se sente um pouco melhor ao ter o medicamento aplicado com o novo curativo.
Assim como as sensações físicas contrastantes experimentadas com seus braços curados, Qolesoe, a jovem de 17 anos, tem sentido uma variedade de emoções no último mês.
“Tenho me sentido com raiva, triste, um pouco deprimida e culpada”, disse ela, enquanto instintivamente dobra e desdobra um pequeno pedaço de papel com as pontas expostas dos dedos.
Ela disse que está constantemente tentando reconciliar os sentimentos negativos com os de esperança e fé. Ela quer entender por que suas amigas e líderes morreram. Ela quer saber por que foi poupada, especialmente quando não se lembra de ter ativamente tentado escapar.
Algumas de suas perguntas provavelmente não serão respondidas nesta vida. E ela está aprendendo a deixá-las de lado e focar nas perguntas que pode responder. Ela e Takane estudam as escrituras juntas; cada uma está preenchendo gráficos de leitura do Livro de Mórmon.
“Ultimamente temos lido Morôni, e Morôni diz exatamente o que eu tenho sentido”, disse ela. “É como se ele tivesse escrito aquilo para mim, para me consolar, para me ajudar a curar. Quando ele fala, é como se estivesse dizendo, ‘Você tem que aprender estas palavras porque elas são escritas para você, para ajudar você a passar por isso.’”
Takane costumava não acreditar em Deus de forma alguma. Um jovem com quem ela estava namorando, Tshepang Thabane, regularmente falava sobre suas experiências espirituais pessoais e dizia a ela que seria mais feliz se também entendesse mais sobre Deus. Enquanto trabalhava em seu emprego com o presidente Molateli, o presidente do ramo disse a Takane onde ele ia à igreja todos os domingos. Seu interesse foi despertado, e ela começou sua própria jornada de não crente, a membro batizado de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
Thabane está feliz por ter desenvolvido um testemunho de Pai Celestial, e ele a visita regularmente no hospital, enquanto ela se recupera de suas queimaduras. O propósito de sua vida, disse ela, é agora descobrir por que sua vida foi poupada no acidente.
“Servir a Deus constantemente é como chegarei a uma resposta, se chegar a uma resposta”, disse ela. Esse desejo de servi-Lo vem de sua nova apreciação pela vida, e surge do amor que ela desenvolveu por Ele."
“Eu costumava pensar que amava a Deus, mas agora eu realmente, realmente, realmente, realmente, realmente O amo “, disse ela. “Agora Ele é a prioridade número um na minha vida.”
Antes de sair para a atividade das jovens, Takane já havia feito arranjos para começar a frequentar as aulas de preparação para o templo na igreja. O plano era ter aulas duplas a cada semana para se preparar para receber sua investidura. Ela também recebeu seu passaporte, que é necessário para frequentar o Templo de Joanesburgo, África do Sul.
Depois que ela receber sua investidura, Takane disse que espera servir uma missão.
“Eu quero servir uma missão, porque sinto que é uma das coisas que vai me ajudar a me aproximar mais de Deus,” disse ela. “Eu tenho que fazer isso. Eu preciso fazer isso.”
Um enfoque do normal para o essencial
Cada uma das jovens parece entender que, aquilo que vivenciaram está fora da experiência normal de qualquer pessoa, jovem ou velha. E elas sabem que os olhos de suas comunidades, e de muitos outros ao redor do mundo, estão voltados para elas. Seu conselho para aqueles que se perguntam como conseguiram passar por uma tragédia assim é simples, mas refinado.
“Eu lhes diria para terem fé em Jesus Cristo. Eles devem amar Jesus Cristo de todo o coração”, disse Mathepelo.
E ela apontou para a escritura do tema dos Jovens deste ano, como sendo uma em que todas elas se apoiaram para obterem força.
Doutrina e Convênios 6:36 diz: “Buscai-[M]e em cada pensamento; não duvideis, não temais.”
Essa ausência de medo ao olharem para o futuro, é evidente quando questionadas se participarão de futuros eventos da Organização das Moças. Antes mesmo da pergunta ser concluída, todas as sete responderam afirmativamente que sim.
“Quero dizer, não devemos ter medo de carros agora”, brinca Mathepelo. “Deus sabia o que ia acontecer e sabe o que vai acontecer, então não precisamos ter medo.”
Nenhuma das moças foi a um templo ainda, mas elas dizem que querem ir e se sentirem próximas de suas amigas e líderes que faleceram.
Elas dizem que se sentem próximas do Espírito quando estudam suas escrituras. Essa foi uma promessa que lhes foi feita por suas líderes das Moças que faleceram no acidente.
“Elas costumavam nos dizer para lermos as escrituras todos os dias. Elas costumavam gritar conosco e nos mandar ler. ‘Você não lê. Você tem que aprender isso’,” Setso’ana lembra. “A morte é algo que pode acontecer a qualquer momento, então eu quero aprender agora. Eu quero aprender mais.”
Apenas duas das sete moças no memorial participaram de qualquer aula da Primária quando crianças. Nenhuma delas nasceu em famílias que já eram membros da Igreja. As demais se juntaram à Igreja na adolescência.
Qolesoe disse que, quando costumava ler as escrituras, fazia isso porque lhe disseram para fazer.
“Você pode fazer isso e receber a mensagem, mas agora, quando leio as escrituras, quando olho para minha vida, não sinto que estava entendendo as escrituras da maneira como entendo agora. Eu as sinto muito mais fortes em meu coração. Minha alma as sente de uma maneira diferente,” disse ela.
Planejando para o futuro
Olhando para o futuro, cada uma das moças tem ideias sobre onde estarão e o que estarão fazendo. Mas todas concordaram em uma coisa que todas querem fazer.
“Muitas pessoas não conhecem a palavra de Deus”, disse Makeresemese.
Com isso em mente, ela e as outras desejam servir uma missão.
“Quero que outros sintam como me sinto agora,” disse Mathepelo. “Quero que eles conheçam a Igreja e saibam mais sobre Jesus Cristo.”
Malehlohonolo disse que quer que as pessoas “saibam que Deus vive. Deus está presente. Ele está sempre lá, nos bons e nos maus momentos.”
Qolesoe espera que as pessoas aprendam a entender que “Deus é realmente misericordioso. Não importa o que você passe, Ele nos ama.”
Ela espera que ninguém precise passar pelo que ela e suas amigas passaram para chegar ao conhecimento do amor e misericórdia de Deus. E ela disse que sabe que não é necessário esse tipo de evento para que as pessoas façam seus próprios esforços para se aproximarem do Salvador.
“Apegue-se a Ele. Deus conhece o fim de toda a dor. Apenas continue se apegando a Ele.”
