Quando nossos filhos eram pequenos, tivemos a oportunidade de levá-los à Catedral de Chartres, na França. Ao caminharmos até o pórtico norte da catedral, dissemos que os levaríamos à Escola Dominical medieval.

Explicamos que, como muitas pessoas na época não sabiam ler, elas usavam as belas esculturas do exterior e os vitrais internos da igreja, para aprenderem histórias das escrituras.

Localizamos nossas estátuas favoritas e pedimos às crianças que as identificassem e explicassem seu significado. Depois de alguns minutos, elas reconheceram as estátuas como sendo de Melquisedeque, Abraão, Moisés, Samuel e Davi, todas grandes figuras do Velho Testamento que prenunciam a vinda do Salvador.
Conversamos sobre como cada um desses profetas do Velho Testamento eram representações de Cristo, ajudando nossos filhos a entenderem como os antigos israelitas aprenderam sobre os atributos e o caráter do Messias, e puderam identificar Jesus Cristo durante seu ministério terreno.
Ao estudarmos o Velho Testamento no próximo ano, teremos a oportunidade de rever as maravilhosas representações de Cristo que estão contidas nele. O profeta Néfi, do Livro de Mórmon, nos ensinou a respeito de Cristo: “Todas as coisas que foram dadas por Deus aos homens, desde o começo do mundo, são símbolos dele” (2 Néfi 11:4).
Quando Adão e Eva saíram do Jardim do Éden, ofereceram sacrifícios conforme lhes foi ordenado e ensinado: “Isso é à semelhança do sacrifício do Unigênito do Pai que é cheio de graça e verdade” (Moisés 5:7).
Existem muitas representações e símbolos de Cristo ao longo do Velho Testamento: eles são encontrados nos convênios e leis, profecias e poesia, bem como na vida dos profetas e das pessoas. Aqui, nos concentraremos nas histórias das cinco figuras do Velho Testamento representadas nessas esculturas e consideraremos como cada uma delas simboliza Cristo e o que podemos aprender com elas.
Melquisedeque
A primeira escultura à esquerda é Melquisedeque, “o sacerdote do Deus Altíssimo” (Gênesis 14:18), representado segurando um cálice para vinho e pão e um incensário, ambos simbolizando funções do sacerdócio.
O nome Melquisedeque em hebraico significa “rei de retidão”, e ele é identificado como o rei de Salém (tradicionalmente Jerusalém), onde obteve paz, por isso foi chamado de “príncipe da paz”, um título de Cristo (Isaías 9:6).
Cristo foi comparado a Melquisedeque e até chamado de “eternamente sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hebreus 6:20; Salmos 110:4) e “um grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus, que penetrou nos céus” (Hebreus 4:14), que fez a oferta perfeita a favor do povo “porque isso fez ele uma vez por todas, oferecendo-se a si mesmo” (Hebreus 7:26-28).

Abraão
Ao lado de Melquisedeque, Abraão é retratado com seu filho Isaque, tocando suavemente o pescoço estendido de Isaque, com uma faca na mão, e sobre um carneiro preso no mato, refletindo a história conhecida como o sacrifício de Isaque.

Ao longo de sua vida, Abraão e Sara são retratados como representações de Cristo, devido à sua fé e obediência em meio a muitas provações. Abraão e Sara, assim como Jesus Cristo, são os pais espirituais de sua posteridade do convênio.
Abraão recebeu o mandamento do Senhor para deixar sua terra natal, e ele respondeu: “Eis-me aqui”, as palavras do Salvador conhecidas do conselho pré-mortal: “Eis-me aqui, envia-me” (Abraão 3:27). Essa mesma frase é repetida por três das cinco figuras: Abraão, Moisés e Samuel.
Abraão é uma representação de Deus, o Pai, que “amou o mundo” e estava disposto a oferecer seu filho amado, “teu único filho, Isaque, a quem amas” (Gênesis 22:2). Isaque é uma representação de Cristo, o filho submisso e obediente que oferece sua vida à vontade de seu Pai. Quando Isaque perguntou: “Onde está o cordeiro?”, Abraão respondeu: “Deus proverá” (Gênesis 22:7-8), e de fato o fez, providenciando Seu Filho Amado, Jesus Cristo, que morreria pelos pecados do mundo.
Moisés
Moisés é retratado segurando as tábuas da lei e apontando para a serpente de bronze, prenunciando Cristo na cruz, para cura e vida eterna.
O Senhor disse que o futuro Messias seria como Moisés: “Eu lhes levantarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu”, instruindo Israel a reconhecer o Messias por meio da vida de Moisés (Deuteronômio 18:18; ver também 1 Néfi 22:21; 3 Néfi 20:23).
A vida de Moisés é paralela e prefigura a de Cristo. Ambos foram salvos do decreto de um governante que ordenava a morte de meninos israelitas recém-nascidos (ver Êxodo 1:15-22; 2:1-10; Mateus 2:13-23).
Moisés passou 40 anos no deserto se preparando para seu papel profético, em paralelo aos 40 dias de Jesus no deserto antes de seu ministério.

Moisés respondeu: “Eis-me aqui” diante da sarça ardente (Êxodo 3:4), e Deus declarou: “E tenho uma obra para ti, Moisés, meu filho; e tu és à semelhança de meu Unigênito; e meu Unigênito é e será o Salvador” (Moisés 1:6).
Moisés e Jesus foram ambos tentados por Satanás no deserto (ver Moisés 1:12-22; Mateus 4:1-11).
Moisés, o pastor, prefigurou Jesus ao declarar: “Eu sou o Bom Pastor”, cumprindo a profecia: “Apascentarei as minhas ovelhas... Livrarei as minhas ovelhas” (Ezequiel 34:10-30).
Moisés ensinou a Israel a ordenança da Páscoa, com o sacrifício de um cordeiro primogênito sem defeito e pão ázimo como símbolos da libertação do Egito (ver Êxodo 12), prefigurando a Última Ceia e a libertação do pecado por meio da Expiação de Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus (ver João 1:29).
Moisés, assim como Jesus, realizou milagres. Moisés demonstrou poder sobre os elementos nas dez pragas, assim como Jesus acalmou a tempestade, andou sobre as águas e transformou água em vinho. Moisés entregou a lei no Monte Sinai; Jesus proclamou o novo convênio no Sermão da Montanha. Moisés anunciou o maná como pão vindo do céu (ver Êxodo 16), prefigurando a alimentação dos 5.000 por Jesus e o sermão do Pão da Vida (ver João 6).
Moisés atuou como intercessor, suplicando pelos israelitas quando pecaram e murmuraram no deserto (ver Êxodo 32:11-14; 33:12-17; Números 14:11-20), oferecendo até mesmo a sua vida em favor do povo, após o incidente do bezerro de ouro: “Agora, pois, perdoa o seu pecado, senão risca-me, peço-te, do teu livro que escreveste” (Êxodo 32:30-32).
Como mediador do convênio, Moisés aspergiu o sangue do sacrifício sobre o povo, dizendo: “Eis aqui o sangue do convênio que o Senhor fez convosco sobre todas estas palavras” (Êxodo 24:7-8). Jesus instituiu o Novo Convênio na Última Ceia, dizendo: “Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para a remissão dos pecados” (Mateus 26:26-28).
Samuel
A maioria das pessoas acredita que a quarta figura seja Samuel, segurando uma faca e um cordeiro para sacrifício.
Ana, mãe de Samuel, foi abençoada pelo sumo sacerdote Eli (ver 1 Samuel 1:17), fazendo um paralelo com o anjo Gabriel abençoando Maria (ver Lucas 1:30).
No nascimento de Samuel, a oração de Ana celebrando a bondade de Deus (ver 1 Samuel 2:1-11) foi ecoada pela oração de Maria, que se alegrava com seu filho ainda não nascido, o futuro Messias (ver Lucas 1:46-56).

Ana e Maria apresentaram seus respectivos filhos como uma oferta no templo (ver 1 Samuel 1:24-28; Lucas 2:22-28).
Samuel proferiu as palavras “Eis-me aqui” em resposta ao chamado do Senhor (1 Samuel 3:3-8).
Samuel estabeleceu a realeza em Israel (ver 1 Samuel 10:24-27), enquanto Jesus estabeleceu a verdadeira realeza (ver Lucas 1:32-33).
Ao longo de sua vida, Samuel serviu ao Senhor como profeta, sacerdote e ungiu reis. Jesus também é Profeta, Sacerdote e Rei.
David
Davi é retratado com uma lança, símbolo de sua fé e coragem como guerreiro que libertou o antigo Israel de seus inimigos e estabeleceu a paz na terra. Ele usa uma coroa, que nos lembra que, como rei, era um ungido, um messias.

Mateus 1 começa com a genealogia de Jesus, filho de Davi, filho de Abraão. Davi foi o célebre antepassado de Jesus Cristo, conhecido por sua fé, obediência e coragem. Ele era um pastor que arriscou a vida por suas ovelhas (1 Samuel 17:34-37).
O Senhor deu a Davi a vitória sobre Golias, um símbolo da vitória de Cristo sobre a morte.
Apesar de suas falhas, Davi foi um rei poderoso, sábio e piedoso, e um salmista que previu a vinda de Jesus (Salmos 22; 110).
Conclusão
Santo Agostinho (354-430 d.C.) ensinou: “O Novo Testamento está oculto no Velho; o Velho Testamento está revelado no Novo.”
No caminho para Emaús, Jesus ensinou aos dois discípulos, que não o reconheceram, o Velho Testamento: “E começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes em todas as escrituras o que dele estava escrito” (Lucas 24:27).

Mais tarde, quando os discípulos estavam sentados à mesa com Jesus ressuscitado, Ele partiu o pão, o abençoou com eles e desapareceu de sua vista. “Abriram-se-lhes então os olhos”, e eles reconheceram que era de fato Jesus, o Messias prometido e Salvador do mundo. Maravilharam-se e disseram: “Não ardia em nós o nosso coração?” enquanto o Salvador repassava as escrituras e os ensinava a respeito de todos os símbolos e profecias sobre Ele (Lucas 24:31-32).
A mesma bênção nos é prometida quando lemos o Velho Testamento com o coração e a mente abertos e com o desejo de conhecermos a verdade. O Espírito Santo testificará à nossa alma que o Messias prometido, predito pelos profetas da antiguidade, representado por meio de símbolos e histórias e prefigurado por muitos dos servos do Senhor, é de fato nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo.
— David Seely é professor de Escrituras Antigas, e Jo Ann Seely é professora adjunta de Escrituras Antigas na Universidade Brigham Young.
