Menu

Matthew Grey: A Última Ceia de Jesus e a Páscoa bíblica

Aprender como a Última Ceia de Jesus ocorrendo no contexto do feriado judaico da Páscoa pode ajudar a entender o sacramento hoje

Disponível em:Inglês | Espanhol

judaicaUm dos eventos mais reconhecíveis dos últimos dias de Jesus em Jerusalém foi a Última Ceia que Ele teve com Seus discípulos na noite anterior à Sua Crucificação.

Nesta ocasião, Jesus deu alguns ensinamentos finais aos Seus seguidores mais próximos e introduziu o que os cristãos modernos frequentemente se referem como a Eucaristia, ou Sacramento da Ceia do Senhor: a participação do pão partido para lembrar o corpo de Jesus, que em breve seria pendurado na cruz, e o compartilhamento de um cálice de vinho para lembrar Seu sangue, que seria “derramado para a remissão dos pecados” (ver Mateus 26:20–30; Marcos 14:17–25; Lucas 22:14–38; e João 13–17).

Hoje, estes símbolos sacramentais são bem conhecidos como emblemas da comunhão cristã. O que pode não ser óbvio para os adoradores modernos, no entanto, é que a Última Ceia de Jesus, onde esses elementos apareceram pela primeira vez — ocorreu no contexto de um antigo feriado judaico chamado Páscoa. Compreender este contexto e o rico simbolismo a ele associado traz vida aos eventos da última refeição de Jesus e pode proporcionar um significado profundo ao sacramento cristão moderno que dele emergiu.

HISTÓRIA RELACIONADA
Podcast do Church News, episódio 286: Como a Páscoa Judaica, a Páscoa Cristã e o sacramento trazem esperança e aumentam a fé

A Páscoa judaica teve suas origens na narrativa do Antigo Testamento sobre a libertação dos israelitas da escravidão egípcia, na época de Moisés. De acordo com o livro de Êxodo, famílias israelitas que foram escravizadas por várias gerações foram finalmente redimidas de sua servidão pelo poder de Jeová, o Deus de seus antepassados.

Com Moisés como Seu porta-voz, Jeová demonstrou esse poder por meio de uma série de pragas — como peste, doença e granizo — que trouxeram grande destruição sobre a terra do Egito. Juntas, essas pragas tinham o objetivo de mostrar a “mão poderosa” de Deus e convencer Faraó “a deixar [seu] povo ir” (ver Êxodo 6–10). No entanto, depois que Faraó se recusou a fazer isso, Moisés advertiu que a praga final seria a mais devastadora — a passagem do anjo da morte pela região e a subsequente perda do primogênito em cada lar egípcio (ver Êxodo 11).

\"Oração de Moisés após os israelitas passarem pelo Mar Vermelho\" é uma pintura de Ivan Kramskoy.
\"Oração de Moisés após os israelitas passarem pelo Mar Vermelho\" é uma pintura de Ivan Kramskoy. | Public Domain

Conforme descrito no relato bíblico, Deus prometeu aos israelitas escravizados que eles seriam poupados da última praga naquela noite fatídica, caso seguissem as instruções específicas dadas por Moisés (ver Êxodo 12:1-7):

  • Nas horas que antecediam o pôr do sol, as famílias israelitas deviam preparar-se para uma refeição sagrada, removendo qualquer fermento (levedura) que ainda restasse na casa como sinal de purificação.
  • Abater um cordeiro macho de um ano de idade, cuja morte deveria substituir o primogênito da família.
  • Assar o cordeiro em uma fogueira no pátio da casa.
  • Espalhar o sangue do cordeiro nos batentes das portas da casa.

Quando o sol se punha e os membros das famílias se reuniam em casa, eles compartilhavam a refeição juntos. Esta refeição consistia de carne assada, consumida em memória do cordeiro que foi sacrificado em nome da família; ervas amargas, uma raiz de sabor desagradável consumida em lembrança da amarga escravidão da família; e pão ázimo que, na pressa da libertação de Deus, não teria tempo de crescer no forno.

Seguindo essas instruções, Moisés prometeu que o anjo da morte “passaria por cima” [“Passover”, em inglês] das casas dos israelitas e que o primogênito de cada família seria poupado (ver Êxodo 12:8–13).

O livro de Êxodo continua relatando que os eventos aconteceram naquela noite conforme previsto. O anjo percorreu a terra do Egito enquanto as famílias israelitas se reuniam atrás das portas fechadas e marcadas de sangue de suas casas para comerem a refeição ritual e aguardarem sua libertação. Essa libertação veio quando o faraó finalmente cedeu e permitiu que as famílias israelitas escravizadas partissem (ver Êxodo 12:28-42).

O que se seguiu foi um êxodo em massa das doze tribos de Israel da terra do Egito, a travessia milagrosa do Mar Vermelho em terra seca (ver Êxodo 13–15) e as peregrinações no deserto durante os 40 anos seguintes, antes que as tribos se estabelecessem na terra de Canaã, prometida a seus antepassados.

Esta série de eventos serviu como uma história fundamental para os israelitas posteriores, lembrando-os do poder de Deus para salvar Seu povo de seus opressores e libertá-los de seus fardos. Como resultado, as gerações subsequentes reencenariam ritualmente a refeição da Páscoa Judaica a cada primavera (no dia 14 ou 15 do mês hebraico de Nisã) como uma forma de lembrarem a intervenção passada de Deus em favor de seus antepassados e de incutirem esperança na capacidade de Deus de fazer o mesmo novamente em tempos futuros de necessidade (ver, por exemplo, Josué 5:10-11; 2 Reis 23:21-23; e 2 Crônicas 30).

As práticas exatas usadas para observar a refeição anual da Páscoa Judaica variaram ao longo dos séculos, mas na época de Jesus, as famílias judias, ou grupos de vizinhos, precisavam fazer uma peregrinação de uma semana de suas cidades natais até o templo de Jerusalém.

Ali, imitando os israelitas na narrativa do Êxodo, eles se juntavam a multidões de outros peregrinos que sacrificavam seus cordeiros perto do altar do templo. Para isso, era necessário primeiro comprar um cordeiro sem defeito no mercado próximo e apresentá-lo a um sacerdote para inspeção. Peregrinos e sacerdotes então abatiam o cordeiro nos pátios do templo, cortando sua garganta, drenando seu sangue, removendo sua pele e separando os pedaços de carne para consumo em uma casa local mais tarde naquela mesma noite.

Bíblias são retratadas no Edifício de Escritórios da Igreja de Salt Lake City na sexta-feira, 12 de dezembro de 2025. | Laura Seitz, Deseret News

Enquanto isso, as casas onde a Páscoa judaica seria celebrada eram limpas do fermento, como acontecia nas casas dos israelitas antigos, e preparadas para o jantar, seja arrumando mesas para um banquete em um triclinium (como era feito entre a aristocracia romanizada de Jerusalém) ou estendendo esteiras no chão para uma refeição mais modesta, utilizando utensílios de cozinha compartilhados (prática comum entre as massas não pertencentes à elite).

Após assar o cordeiro no pátio de casa e esperar o pôr do sol, as famílias e seus convidados se reuniam em suas casas, com pouca luz, recontavam a história da Páscoa judaica na Bíblia Hebraica e imitavam os antigos israelitas ao comerem carne de cordeiro, pão ázimo e ervas amargas. Na época de Jesus, essas práticas eram frequentemente enriquecidas com vinho e com o cântico de salmos (como os Salmos 113–118) para celebrar as alegrias do poder redentor de Deus.

Esse padrão geral de comemorar uma refeição sacrificial da Páscoa judaica era observado pela comunidade judaica todas as primaveras, até a destruição do Templo de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C., se tornando uma parte importante do calendário religioso durante a maior parte do primeiro século. De fato, foi no contexto de uma peregrinação da Páscoa Judaica que Jesus fez sua jornada final com seus discípulos, de suas vilas natais na Galileia até a cidade populosa de Jerusalém.

Um homem judeu ultraortodoxo examina uma Matza, um pão ázimo tradicional feito à mão para a Páscoa.
Um homem judeu ultraortodoxo examina uma Matza especial, um pão ázimo tradicional feito à mão para a Páscoa, em uma padaria de Kfar Chabad perto de Tel Aviv, Israel, segunda-feira, 11 de abril de 2011. | Associated Press

De acordo com os Evangelhos sinópticos (Marcos, Mateus e Lucas), os discípulos passaram seu último dia com Jesus fazendo os preparativos necessários e participando, juntos, de uma última refeição da Páscoa judaica, agora conhecida como a Última Ceia.

Esses relatos das escrituras sugerem que, assim como outras famílias judias, Jesus e os discípulos se reuniram naquela noite em uma casa local, contaram as histórias da libertação de Israel da escravidão egípcia por Deus, cantaram salmos que relembravam o poder libertador de Deus e participaram dos alimentos rituais da Páscoa judaica (ver Marcos 14, Mateus 26 e Lucas 22).

No entanto, o que tornou a última Páscoa Judaica de Jesus notável, foi o fato Dele ter tomado dois itens da refeição comemorativa, os pedaços de pão ázimo partidos e o cálice de vinho, e fornecido uma interpretação adicional para os discípulos considerarem: “Tomai, comei; isto [o pão] é o meu corpo. ... Bebei [deste cálice], porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para a remissão dos pecados” (Mateus 26:27-28).

\"The Passover\" é de W. H. Margetson | Credit: The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints

Ao adicionar esta nova camada de significado ao simbolismo da redenção na Páscoa Judaica, Ele essencialmente disse aos Seus discípulos para comerem o pão ázimo e beberem o vinho, tanto em memória da libertação passada de Israel por Deus através da morte do cordeiro primogênito, quanto em reconhecimento da sua própria libertação pessoal através de Sua obra redentora como o Messias.

Em outras palavras, assim como Israel foi libertado da escravidão egípcia pelo sacrifício e sangue do cordeiro da Páscoa Judaica original, os seguidores de Jesus seriam libertados da escravidão de seus pecados por Sua morte iminente na cruz. Jesus, em suma, seria o sacrifício supremo da Páscoa Judaica, providenciado por Deus para a salvação do Seu povo (para mais informações sobre as conexões simbólicas que os primeiros cristãos estabeleceram entre o cordeiro da Páscoa Judaica e Jesus como o “Cordeiro de Deus”, veja João 1:29–34e 19:14–37; veja também Êxodo 12:22). Ao adicionar essas novas camadas de significado à refeição da Páscoa Judaica tradicional, Jesus também parecia estar declarando aos seus seguidores que estava agindo como o “profeta semelhante a Moisés” (Deuteronômio 18:15–19) que viria um dia para trazer um “novo convênio” de perdão que remetia ao Êxodo original (ver Jeremias 31:31–34).

Nas gerações seguintes, os primeiros seguidores de Jesus continuaram a comemorar esse momento em suas próprias refeições comunitárias. Inicialmente, os cristãos reunidos em igrejas domésticas desfrutavam de um jantar de comunhão, ao final do qual comiam pão e bebiam vinho em memória das ações de Jesus durante sua última refeição da Páscoa Judaica.

Paulo descreveu uma dessas refeições que ocorreu entre os crentes em Corinto no primeiro século, relatando as palavras de Jesus sobre o pão e o cálice na Última Ceia (ver 1 Coríntios 11:23-25). Ele então ensinou que esses símbolos representavam “o novo testamento no sangue [de Jesus]” e que, sempre que os crentes participavam deles, eles “anunciavam a morte do Senhor até que ele venha” (1 Coríntios 11:25-26).

Com o tempo, as refeições comunitárias mais elaboradas desapareceram da prática cristã, mas o ritual de partilhar o pão e o vinho continuou, se desenvolvendo gradualmente naquilo que os cristãos viriam a chamar de Eucaristia, ou Sacramento da Ceia do Senhor.

Embora uma adaptação da Páscoa judaica bíblica ainda seja comemorada no judaísmo moderno, com uma refeição anual chamada seder, a maioria das comunidades cristãs não celebra mais a festa como era observada na época do Velho e do Novo Testamento. No entanto, ao compartilhar o pão e o cálice em reuniões de adoração regulares, os cristãos modernos preservaram uma pequena parte da celebração bíblica em suas próprias práticas de adoração.

Pão e água sacramentais.
Pão e água sacramentais. | The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints

Ao participar desses emblemas simbólicos, é natural recordar a ordem de Jesus na Última Ceia, para comer o pão e beber o cálice em memória de seu sofrimento e morte. Também é apropriado lembrar de que esta prática tem suas raízes na refeição da Páscoa judaica, tal como era celebrada no primeiro século. Assim, aqueles que participam da Eucaristia ou do sacramento têm uma bela oportunidade de recordarem a libertação no passado de Israel por Deus (como celebrada na Páscoa judaica bíblica), enquanto, ao mesmo tempo, refletem sobre sua própria redenção por meio dos atos expiatórios de Jesus e aguardam o dia em que Ele retornará para completar sua missão messiânica de salvação.

— Matthew J. Grey é professor de Escrituras Antigas e coordenador do programa de Estudos do Antigo Oriente na Universidade Brigham Young em Provo, Utah.

HISTÓRIAS RELACIONADAS
Krystal Pierce: Reconhecendo a verdadeira identidade de Cristo ressuscitado
Leia outras reportagens do Church News sobre a Semana Santa e a Páscoa
NEWSLETTER
Receba destaques do Church News entregues semanalmente na sua caixa de entrada grátis. Digite seu endereço de e-mail abaixo.