Kosrae, um pequeno estado insular da Micronésia, a cerca de 640 quilômetros da linha do Equador e localizado entre o Havaí e Guam, comemorou 40 anos da chegada de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias à ilha em março de 2025, informou a Sala de Imprensa da Igreja em Guam/Micronésia [em inglês].
Mas esses sentimentos bons e festivos nem sempre existiram.
Um começo difícil de Kosrae
Voltando no tempo para 1985, Kosrae era uma “ilha de uma só religião” por mais de um século, dominada pela Igreja Protestante Congregacional. Quando missionários e líderes da Igreja desembarcaram em Kosrae em 25 de março daquele ano, encontraram uma recepção fria.
Ministros locais alertaram: “Já existem igrejas suficientes em Kosrae”. Desconhecidos olharam com desdém para os dois élderes que desciam de bicicleta a estrada ladeada pela selva, e seu apartamento chegou a ser atingido por pedras.
No entanto, os missionários e líderes da Igreja não fizeram as malas e partiram. Em vez disso, oraram. De fato, o presidente Joseph B. Keeler, na época presidente da Missão Micronésia Guam, fez uma oração convidando a obra do Senhor a começar naquela humilde ilha.
Naquela reunião de 27 de março de 1985, no Hotel Sandy Beach, ele também designou dois jovens élderes de Pingelap, Micronésia: o élder Matterson Ramon e o élder Ioichey Diópulo.
Também estavam presentes Roy e Helen Sievers, e seus quatro filhos, todos santos dos últimos dias, que moravam nas Ilhas Marshall e estavam visitando um amigo na ilha, Sepe Hein, que ainda não era membro, mas que se juntou a eles na reunião. Naomi Johnny, que morava na ilha vizinha de Pohnpei, também estava lá. Ela havia viajado para Kosrae dois dias antes para encontrar um lugar para os élderes morarem. Ela serviria como presidente da Sociedade de Socorro do Distrito Kosrae e apresentaria o evangelho a muitas pessoas. O presidente do Distrito Pohnpei, D. Willard Paxman, e sua esposa também estavam presentes. Ao final da reunião, esses santos dos últimos dias e amigos compartilharam seus testemunhos.
Ao encerrarem a reunião inaugural, alguém bateu à porta quase imediatamente. Ao abrirem, encontraram um diácono da Igreja Congregacional que tinha algo a dizer sobre a chegada da Igreja.
“Falo pelo povo de Kosrae”, declarou ele. “Agradeceríamos se os [santos dos últimos dias] não tentassem estabelecer sua Igreja aqui.”
Presidente Keeler respondeu que eles tinham vindo por orientação de Deus, e que não partiriam a menos que Deus os orientasse.
Dois dias depois, como se quisesse ressaltar a resistência, a legislatura de Kosrae aprovou uma resolução pedindo à Igreja que não realizasse proselitismo na ilha.

Com este início desafiador, seria difícil prever que, décadas depois, os santos dos últimos dias estariam cantando hinos na língua kosraeana, administrando diversas congregações e trabalhando com o governo para ajudar os necessitados. Mas foi exatamente isso que aconteceu, um pequeno milagre de cada vez.
Parecia que o Senhor se lembrava daqueles que estavam nas ilhas do mar (ver 2 Néfi 29:7).
Devagar e sempre
No verão de 1986, cerca de um ano depois daquela batida fatídica na porta, os missionários em Kosrae realizaram um batismo.
A história da missão explica que apenas um punhado de pessoas compareceu, mas os presentes testemunharam “um dia glorioso”: o primeiro kosraeano batizado na fé em solo nacional. Era um jovem de 22 anos chamado Isidro Abraham.
A partir daí, a pequena Igreja começou a ganhar membros locais de forma lenta, mas constante. Um jovem marinheiro, Elisha Kurr, recebeu um Livro de Mórmon de Naomi Johnny em um navio cargueiro e o leu com avidez. Ao retornar para casa em Kosrae, ele procurou os missionários.

Sua esposa, Rose Kurr, estava cética: a história de Joseph Smith vendo Deus e Jesus, pensava ela, “não podia ser verdade, porque não estava na Bíblia”. Mas Rose Kurr decidiu orar a respeito. Ela obteve seu próprio testemunho, e Elisha Kurr e Rose Kurr logo foram batizados juntos em um rio, se tornando uma das primeiras famílias santos dos últimos dias de Kosrae.
Por volta de agosto de 1986, uma capela em Lelu foi concluída. Antes disso, as reuniões eram realizadas ao ar livre ou na casa dos líderes da Igreja.
Em 1990, havia conversos locais suficientes para organizarem oficialmente o Distrito Kosrae Micronésia. Em uma pequena capela na vila de Lelu, dezenas de santos kosraeanos, a maioria membros de primeira geração, se reuniram para a conferência inaugural do distrito.
Eles apoiaram um dos seus, Charley Japed Jim, como o recém-chamado presidente do distrito. Jim havia sido presidente do Ramo Utwe, realizando reuniões em sua casa, e foi o primeiro kosraeano a receber sua investidura no templo, em 1989.
Aqueles primeiros dias não foram isentos de turbulência. Quando os santos dos últimos dias construíram sua primeira capela em Utwe, alguns críticos tentaram impedi-la, e alguns indivíduos furiosos chegaram a atirar pedras nas janelas dos missionários à noite.

Mas a perseguição não conseguiu afastar ninguém. De fato, a oposição, sem querer, criou uma tradição comunitária: como os protestantes pressionaram a vila a proibir os santos de realizarem atividades na sede da prefeitura, um casal sênior da ilha, o élder Walter Elsby e a síster Marjorie Elsby, começou a promover noites de filme em seu próprio quintal.
Eles exibiam filmes para famílias e, para sua surpresa, mais de 170 pessoas se espremiam para assistirem.
Logo, casais seniores também convidaram vizinhos nas noites de segunda-feira para a noite familiar, lhes ensinando canções e brincadeiras. O gelo estava quebrado. “Nós os achamos amigáveis, generosos e bondosos”, escreveu a irmã Georgia Whatcott sobre seus vizinhos kosraeanos em 1990, maravilhada em como a mudança da percepção que predominava mudou em cinco anos.
Trabalho contínuo e conversão

Com relações amigáveis com a comunidade e o governo, a partir de 1990 o crescimento da Igreja foi constante e consistente.
Em 24 de janeiro de 1992, a capela de Utwe foi dedicada. Em outubro, a capela de Lelu foi demolida para dar lugar a uma capela maior. Em 3 de dezembro do mesmo ano, a capela de Malem foi dedicada. Finalmente, em janeiro de 1993, a nova capela de Lelu e uma pia batismal permanente foram concluídas e dedicadas.

Em fevereiro de 1992, as primeiras missionárias foram chamadas para Kosrae: síster Andrea Torgeson e síster Myrna Finau.
Em 1997, uma seleção de hinos foi traduzida para o kosraeano. Sepe Lowary, que participou daquela primeira reunião no Hotel Sandy Beach, auxiliou na tradução dos hinos.

Por cerca de três anos, os santos dos últimos dias em Kosrae economizaram dinheiro suficiente para viajarem ao Templo de Manila Filipinas [em inglês] para realizarem o trabalho do templo. Finalmente em 2000, 20 adultos e 17 jovens fizeram a viagem de vários dias até Manila.

Ao final da viagem, todos os adultos haviam recebido sua investidura do templo, sete casais e oito famílias foram selados e ordenanças vicárias foram realizadas para 157 pessoas.
Em 2007, seis pessoas se filiaram à Igreja; em 2008, nove foram batizadas; e em 2009, mais de 20 se filiaram.

Desde abril de 2008, os discursos da conferência geral são traduzidos para o kosraeano. A Liahonaé traduzida para o kosraeano desde 2010.
Com uma expectativa de vida de apenas 65 anos e a erosão da costa ao redor da ilha, alguns cidadãos kosraeanos preferiram se mudar para outras ilhas ou para os Estados Unidos. Em 2001, o Ramo Malem foi fechado e esses santos dos últimos dias se juntaram aos ramos Utwe ou Lelu.
Síster Della Dyke, missionária sênior que hoje serve em Kosrae, também explicou que a pandemia da COVID-19 foi prejudicial para muitos membros na ilha.
“Todos os missionários foram embora, os membros não puderam se reunir e os líderes da Igreja não puderam visitar para dar apoio”, disse ela.
A ilha ficou sem missionários até agosto de 2022. Em 2023, o Distrito Kosrae Micronésia foi fechado, e esses ramos se tornaram parte da Missão Micronésia Guam.
Apesar destes contratempos, as duas duplas de jovens missionários e uma duplas de missionários seniores ainda encontram sucesso na ilha. Parte desse sucesso pode ser encontrada no crescimento contínuo da Igreja. Em 2024, 12 pessoas foram batizadas e se tornaram membros da Igreja. Em 2025, 10 pessoas foram batizadas até o momento.
110ª tradução do Livro de Mórmon

Um dos eventos mais importantes na história da Igreja em Kosrae aconteceu em 2015, quando o Livro de Mórmon foi finalmente publicado em seu próprio idioma.
De acordo com um livro chamado “Battlefields to Temple Grounds” [Dos campos de batalha ao terreno do templo], publicado pelo Centro de Estudos Religiosos da BYU[em inglês], a Primeira Presidência aprovou a tradução do Livro de Mórmon em 2009, uma época em que havia apenas 300 santos que falavam kosraeano.

Para comemorar o evento, os santos se reuniram para uma celebração cultural do Livro de Mórmon, reencenando momentos importantes das escrituras.
Um casal de missionários seniores, o élder Clark Hardy e a síster Lorna Hardy, escreveram juntos que, “A celebração cultural incluiu canto, dança e artesanato. Os dois ramos também tiveram um coro conjunto que foi incrível.”
Trabalho Humanitário em Kosrae

De 1985 a 2025, a percepção pública da Igreja em Kosrae mudou completamente. A comunidade de santos dos últimos dias em Kosrae ainda é relativamente pequena: algumas centenas de membros entre milhares, mas sua influência vai muito além dos números. Talvez em nenhum lugar isso seja mais visível do que no âmbito do serviço humanitário. A mesma Igreja que um dia foi convidada a se retirar, se tornou conhecida por sua ajuda.
Em 2003, a legislatura em Kosrae homenageou a Igreja com uma resolução expressando “o mais sincero apreço pelas doações humanitárias da Igreja de Jesus Cristo”. A gratidão expressada naquela ocasião foi apenas o começo; eles emitiram outras resoluções formais de agradecimento, inclusive em 2024 e 2019. David W. Panuelo, presidente dos Estados Federados da Micronésia, se reuniu com líderes da Igreja diversas vezes.

De 1998 a 2025, a Igreja participou de mais de 40 projetos humanitários em Kosrae, incluindo a colaboração com os departamentos de saúde e educação da ilha. Durante 21 desses 27 anos, a Igreja prestou serviços inestimáveis, doando centenas de cadeiras de rodas, estufas, kits de higiene e suprimentos médicos.
40 anos da Igreja de Cristo
Este ano, os santos dos últimos dias em Kosrae celebram o 40º aniversário da Igreja na ilha, quatro décadas depois que a primeira oração foi feita em 1985. Eles realizaram celebrações nas quais cantaram hinos em kosraeano, compartilharam memórias e homenagearam os conversos pioneiros que iluminaram o caminho.

Ao refletir sobre a Igreja de Kosrae, o presidente Molton Mongkeya, presidente do Ramo Lelu, e também ex-membro do comitê que aprovou a tradução do Livro de Mórmon para o kosraeano, comentou: “Tenho visto membros da Igreja se tornarem mais corajosos e confiantes por causa dos missionários e da maravilhosa mensagem do evangelho de Jesus Cristo.”
O presidente Tom Stillwaugh, segundo conselheiro na presidência da Missão Micronésia Guam, explicou que tanto membros, quanto não membros, vieram para apreciar as festividades.

“Eles se divertiram vendo fotografias e conversando sobre eventos passados”, disse ele. “E falando sobre como a Igreja mudou e cresceu ali.”
Sua esposa, a síster Terri Stillwaugh, uma missionária sênior, disse: “É uma grande família e os moradores locais que são membros há muito tempo, amam o evangelho.”

O presidente e a síster Stillwaugh compartilharam que os santos dos últimos dias conversaram e encontraram a mão de Deus nos detalhes de sua história.
De fato, a mão de Deus é evidente nos últimos 40 anos: em corações transformados, em hortas prósperas, em salas de aula lotadas, em corpos curados e na comunhão de outrora desconhecidos.
A Igreja de Kosrae através de fotos
Celebração do 40º aniversário










Celebração do Livro de Mórmon de 2015








Membros, missionários e bons momentos








Projetos de serviço e trabalho humanitário














