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O 'Wizard' da esperança

Em uma época de pandemias e deslocamentos, um dos homens mais ricos do Brasil está ajudando refugiados a encontrarem um lar

Nota do editor: Este artigo foi escrito por Hal Boyd e originalmente publicado em 2 de março de 2022, pelo Deseret Magazine em inglês.

Carlos Wizard Martins não nasceu com seu nome do meio, o qual significa “mágico” em inglês. Este nome interessante surgiu mais tarde em sua vida. E a história de como isso aconteceu exatamente é tão improvável quanto sua odisseia da pobreza à riqueza.

Vestindo uma jaqueta de couro em estilo corte estreito e um grande sorriso, Carlos é rápido em me receber com um soquinho amigável, um cumprimento que se tornou popular durante a pandemia de COVID-19. Nos encontramos no saguão da funilaria automotiva de seu irmão, um edifício de dois andares localizado rua principal de Orem, Utah, que é conhecida como “Family City USA” (Cidade da Família dos E.U.A.).

Carlos e sua esposa, Vânia, agora dividem seu tempo entre o Brasil e os estados de Utah e Flórida, um esquema migratório desenvolvido em torno dos locais onde moram seus seis filhos e 19 netos.

Enquanto caminhamos, pergunto sobre a placa da SUV de Carlos, estacionada do lado de fora. A placa diz: “IMA WZRD” (abreviação de “eu sou um mágico”). Carlos, que tem uma personalidade discreta, sorri e me conta sobre seu outro automóvel, uma Ferrari, com a seguinte placa: “MR WIZZ” (abreviação de “senhor mágico).

O carro, explica ele, é um luxo do qual ele desfruta apenas nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, o complexo residencial da família tem segurança armada 24 horas por dia e, quando ele se aventura a sair de casa, o faz em veículos sem placas à prova de balas.

Como um dos mais de 30 bilionários do Brasil, certas precauções são necessárias.

Especialmente devido a acontecimentos recentes. Carlos havia sido convidado a desempenhar uma função de consultoria com duração de um mês para ajudar o Brasil a lidar com o início da pandemia. A designação rapidamente atraiu um nível de escrutínio (Carlos foi coberto por jornais como o New York Times) e ódio político (ele foi chamado para depor perante a comissão parlamentar de inquérito do Brasil), com os quais ele não estava acostumado ou preparado para lidar.

Mesmo assim, ele recebeu um convite para ser o secretário do ministério responsável pela resposta do país à pandemia de COVID-19, o qual recusou. Ele explica que estava feliz em oferecer conselhos e ajuda, mas sua primeira experiência em uma espécie de papel político, mesmo que tenha sido “informal”, provavelmente foi sua última.

No entanto, Carlos não veio aqui hoje para falar de política, seu complexo residencial, ou automóveis. Ele concordou em se sentar comigo para compartilhar as experiências de milhares de refugiados venezuelanos que estão vivendo em Boa Vista, Brasil. Por quase dois anos antes da pandemia, ele e Vânia procuraram ajudar esses refugiados a encontrarem uma vida melhor no Brasil.

Esta é a história que ele quer compartilhar. Por um lado, é uma história sobre o poder do serviço comunitário presencial. Mas, por outro, a história é sobre como escolhemos agir e melhorar vidas quando confrontados com circunstâncias desafiadoras e, no caso dos refugiados, até mesmo desesperadoras.

Carlos Wizard Martins.
Carlos Wizard Martins.

Carlos me conduz a uma sala de conferências na extremidade norte do edifício. Ele começa a contar exatamente por que ele e Vânia deixaram uma vida confortável em Campinas (uma cidade localizada a cerca de uma hora de São Paulo) para morar em uma das regiões mais escassamente povoadas do país. Mas antes de prosseguir, ele diz que há uma história que deve compartilhar, a qual inclui como recebeu seu nome do meio. 

Carlos se tornou um bilionário com a língua inglesa. O mais velho de sete filhos, Carlos foi criado em Curitiba, Brasil. Seu pai, que agora tem 88 anos de idade e mora em Orem, Utah, ganhava seu sustento dirigindo caminhões. As crianças não aprenderam muito inglês durante a infância, mas quando Carlos tinha 12 anos de idade, sua família se filiou [À] Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. A partir de então, Carlos começou a aprender um pouco do idioma com os missionários da Igreja, muitos dos quais eram americanos.

Este aprendizado continuou quando Carlos serviu sua própria missão para a Igreja, aos 19 anos de idade, em Portugal. Mais tarde, enquanto estudava na Universidade Brigham Young, Carlos alcançou o domínio do idioma que mudaria sua vida.

Mas essa parte quase não chegou a acontecer.

Carlos tinha dificuldades nos estudos. Ele só concluiu o equivalente a um diploma do ensino médio após se casar, aos 22 anos de idade. E aos 26 anos, após seu primeiro semestre do curso de Ciências da Computação na Universidade Brigham Young, as coisas não estavam indo bem. “Minhas notas eram extremamente ruins”, diz ele. “Eu sentia que não estava qualificado ou preparado. Era um sonho impossível, uma ilusão, pensei.”

Então, ele decidiu desistir e voltar para casa. Ou, como se costuma dizer no Brasil, ele decidiu “tirar o cavalinho da chuva”. Vânia, no entanto, não aceitou a decisão. Dentro de seu minúsculo apartamento em um porão na rua 500 North em Provo, Utah, ela deixou claro que, independentemente de suas notas, o casal não voltaria ao Brasil até que Carlos terminasse o que havia começado.

Eu pergunto a Vânia o que lembra daquele momento, e ela recorda ter perguntado a Carlos: “Se você desistir da faculdade, o que as crianças vão dizer sobre o pai delas?”

“Não havia escapatória para mim”, disse Carlos. “A não ser me formar.”

Então, foi o que ele fez.

Após uma temporada de trabalho em Cincinnati, Ohio, o casal retornou ao Brasil. Carlos estava trabalhando para uma empresa internacional de fabricação de papel no Brasil, quando um colega de trabalho pediu que ele lhe desse aulas de inglês. A notícia logo se espalhou, e mais alunos apareceram. Carlos passou então a ganhar mais com esse bico do que com seu emprego corporativo. E assim, aos 30 anos de idade, ele decidiu arriscar e abriu sua própria escola de inglês. 

Uma escola se tornou duas. Duas se tornaram três, e assim por diante.

Quando ele vendeu seu negócio em 2013 para o grande grupo editorial britânico Pearson, a empresa tinha mais de 2.600 franquias em 10 países. Desde então, os investimentos da família passaram a incluir bens imobiliários, serviços financeiros, esportes, ensino e, mais recentemente, fast-food: eles são um dos maiores franqueados do Brasil de redes americanas de restaurantes como Taco Bell, Pizza Hut e KFC.

Carlos Wizard Martins aprendeu a trabalhar muito cedo. Sua ética de trabalho o levou a vender a empresa que fundou por mais de US$ 700 milhões, o que, junto com outros investimentos, o tornou bilionário.
Cortesia de Carlos Wizard Martins

Porém, tudo começou com o ensino da língua inglesa. Durante os primeiros dois anos de sua empresa, uma das primeiras franqueadas abordou Carlos com uma exigência: coloque o nome da empresa, “Wizard”, no seu. Carlos batizou sua escola em homenagem ao filme “O Mágico de Oz” (The Wizard of OZ em inglês), porque adorava a mensagem de que todos possuem um talento singular a ser encontrado.

Mas Carlos descartou a ideia de mudar seu nome para wizard. “E se tudo falir?”, ele ri ao contar a história. “As pessoas irão rir de mim e questionarão: ‘Que tipo de wizard é você?’

Seria pura loucura.”

Mas a franqueada não cedeu. Ela questionou se ele realmente acreditava na rede. Claro, ele insistiu, mas isso não requer uma mudança de nome. Ela então ressaltou que seus dois principais concorrentes — Fisk e Yazigi — haviam batizado suas escolas com seus nomes. Para competir, ele precisava fazer isso.

Ela concluiu dizendo que, se ele não adotasse o nome da escola, ela mesma o faria. Carlos acabou cedendo, e a decisão de adicionar legalmente “Wizard” ao seu nome provou ser uma brilhante estratégia de marketing. Algum tempo depois, a empresa formalmente homenageou essa franqueada por ter tido a ideia. 

Carlos entrou no ramo do ensino da língua inglesa por acaso, e o mesmo aconteceu quando entrou no trabalho humanitário de ajuda a refugiados. A história de como isso aconteceu, diz ele, começou há quase duas décadas e meia com um telefonema que nenhum pai jamais deseja receber: seus filhos gêmeos haviam sofrido um grave acidente de carro.

Quando Carlos chegou ao local, ele foi informado de que um de seus filhos havia falecido. Chocado com a dor, ele ficou sem palavras. Ele simplesmente não conseguia imaginar como iria dar a notícia a Vânia.

A situação, no entanto, mudou completamente no hospital, quando o casal foi informado de que, na verdade, os dois jovens estavam vivos. No entanto, tragicamente, um terceiro passageiro, amigo de seus filhos, havia morrido.

Carlos e Vânia ficaram confusos ao sentirem uma enxurrada de emoções conflitantes. Carlos até se perguntou se os médicos estavam simplesmente tentando protegê-los da verdade. 

Mas, quando se deram conta de que ambos os filhos ainda estavam vivos, eles voltaram sua atenção para fazer o que fosse possível para averiguar os detalhes sobre suas condições de saúde. Um de seus filhos, Lincoln, teve apenas ferimentos leves, mas o outro, Charles, permanecia em estado crítico.

Eles oraram e choraram juntos. Naquela noite, sem que Carlos soubesse, Vânia fez uma promessa a Deus: se Ele permitisse que seu filho vivesse, ela adotaria uma criança que precisasse de um lar amoroso. Quando Vânia contou sua promessa a Carlos na manhã seguinte, ele disse que adotariam duas crianças: “Você cria uma, e eu crio a outra.”

O filho do casal sobreviveu.

E, leais à promessa que haviam feito, eles enviaram a documentação necessária para uma agência de adoção. Dentro de poucos anos, eles conseguiram adotar dois irmãos: Nicholas, de 2 anos, e Felipe, de 3 meses. Contudo, poucos dias após a adoção, ficou claro que o filho mais velho tinha problemas de desenvolvimento. Quando suas filhas, Thais Michelle e Priscila, tentavam jogar bola com Nicholas, ele não interagia com elas. Eles descobriram que ele estava no espectro do autismo e sofrera uma falta de estimulação e atenção quando bebê. 

Quando os dois meninos cresceram e terminaram seus estudos, o filho mais novo se preparou para servir uma missão da Igreja, seguindo os passos de seus irmãos mais velhos e seus pais. Porém, devido à condição do filho mais velho, Carlos e Vânia temiam que ele não conseguisse servir por dois anos longe de casa.

Embora compreendessem essa realidade, eles não sabiam como ajudar seu filho a viver o sonho de servir. Foi então que Vânia recebeu inspiração novamente. Os dois partiriam em uma missão de serviço e seu filho simplesmente os acompanharia. Essa ideia desencadeou uma série de eventos que, por fim, os levaram ao extremo norte do Brasil, próximo à fronteira com a Venezuela, a quase 4.800 km de casa.

Carlos admite que, se não fosse pelo coração de Vânia, eles teriam permanecido em seu luxuoso complexo residencial, sem nunca compreenderem o sofrimento dos refugiados venezuelanos ou defendê-los. Depois de uma viagem à Copa do Mundo de 2018 na Rússia, os três Martins chegaram a Boa Vista, Brasil, onde encontraram um acampamento com mais de 100.000 venezuelanos, com outros milhares vivendo nas ruas. 

Refugiados e voluntários carregam pertences e suprimentos pessoais pela fronteira entre Venezuela e Colômbia, em novembro de 2019, enquanto a agitação civil continua na Venezuela.
A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

Em Boa Vista, grandes campos de refugiados forneciam alimento e abrigo. Mas Carlos logo notou que a economia da região não estava preparada para receber um fluxo tão grande de pessoas sem meios para se sustentar. A maioria dos empregos na região, explica ele, são serviços governamentais.

“Que chance”, ele se pergunta em voz alta, “um estrangeiro tem de trabalhar nessas circunstâncias? Nenhuma.”

Com mais refugiados chegando a cada dia, Carlos sentiu que Boa Vista estava se tornando uma bomba, prestes a estourar: “Precisávamos elaborar um plano para enviar pessoas para o sul, onde havia empresas e empregos.”

Carlos e Vânia começaram a se reunir com diversos representantes de organizações governamentais e não governamentais para discutirem soluções. Se conseguissem permissão para realocar os refugiados, Carlos acreditava que eles teriam mais chances de se estabelecerem.

Mas primeiro, havia a questão do transporte. Viajar de Boa Vista para cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro leva cerca de 60 a 70 horas de carro. Eles teriam que encontrar voos para os refugiados.

Carlos teve uma ideia: telefonar para David Neeleman [em inglês]. Um colega santo dos últimos dias nascido em São Paulo, Neeleman se tornou uma figura empresarial notável após fundar a JetBlue. O que é menos conhecido nos Estados Unidos é que ele também fundou a Azul, uma companhia aérea com quase um quarto do mercado de voos domésticos no Brasil.

Carlos descreve seu telefonema para Neeleman, pegando seu iPhone e praticamente encenando a conversa.

Primeiro, Carlos expõe a situação a Neeleman e, em seguida, Neeleman pergunta se Carlos precisa de passagens aéreas com desconto. “Não”, Carlos responde delicadamente, “esperamos garantir voos gratuitos para os refugiados”.

Em seguida, ele apresenta seu pedido: “Todos os dias, voos partem de Boa Vista com um, dois ou mais assentos vazios. Simplesmente gostaríamos de preencher esses assentos vazios de graça.”

Neeleman aceitou o pedido.

No entanto, o reassentamento adequado de refugiados requer mais do que apenas um voo. Eles precisavam associar cada refugiado a um sistema de apoio, quer fosse uma família, uma congregação religiosa, ou outra ONG, que pudesse ajudar a sustentá-los enquanto trabalhavam para reconstruir sua vida em uma terra nova e desconhecida.

Organizar a logística para cada pessoa ou família era como decifrar um código em constante mudança. Cada parte deve se encaixar, mas também está mudando continuamente. Carlos e Vânia alugaram três propriedades em Boa Vista, as quais foram usadas para fornecer moradia temporária a refugiados que se preparavam para partir. Eles telefonaram para pedirem favores e construíram relacionamentos com organizações de caridade e congregações de igrejas locais.

Mas eles explicaram que algumas situações exigiam um nível de logística além de suas próprias habilidades. E assim, eles se voltaram para o céu em busca de ajuda.

O americano-brasileiro David Neeleman fundou a Azul Airlines no Brasil, em 2008 | Azul Airlines

Tal foi o caso de Eduarto Villanueva, um homem cego que chegou ao campo de refugiados apenas com a filha de 1 ano de idade e a roupa do corpo. Eduarto disse que sua esposa havia morrido em um acidente de carro e o Estado o considerou incapaz de cuidar de seu filho de 2 anos. 

Ele chegou ao Brasil com tudo que lhe restava: sua filhinha.

Carlos e Vânia, que também souberam que Eduarto era membro da Igreja, temiam pela segurança da bebê. Eles tinham ouvido falar de gangues na cidade que eram conhecidas por sequestrarem crianças de pais solo e vendê-las. Vânia começou a fazer telefonemas para ver se havia um lugar adequado e seguro para essa família de apenas dois membros. Após vários telefonemas, Vânia entrou em contato com um amigo que, por acaso, conhecia uma organização especializada em ajudar pessoas com deficiências, localizada na cidade de Jataí, a qual havia sido fundada e era dirigida por um médico e sua esposa.

Alguns telefonemas mais e tudo estava arranjado. O médico não apenas os acolheria mas, no dia em que desembarcassem, marcaria uma consulta com um oftalmologista. Eles também descobriram que a congregação local da Igreja de Eduarto estava situada a apenas um quarteirão da organização de acolhimento, o que acrescentava outra camada de apoio essencial.

Para Vânia e Carlos, isso já era um milagre. No entanto, mais tarde, eles receberam esta notícia: após uma cirurgia oftalmológica bem-sucedida, Eduarto conseguiu recuperar 50% da visão em um de seus olhos.

Pelas contas do casal Martins, em menos de dois anos e com o apoio de companhias aéreas, organizações governamentais e inúmeras outras ONGs, e parceiros religiosos, eles conseguiram realocar cerca de 20.000 refugiados. E, embora seu trabalho tenha sido interrompido devido à pandemia de COVID-19, refugiados continuam a decolar em voos de Boa Vista para locais mais hospitaleiros em todo o Brasil.

O trabalho missionário formal do casal chegou ao fim, mas Carlos e Vânia sentem que seu coração ainda está em Boa Vista. Ele pega o telefone novamente e diz que, ocasionalmente, recebe telefonemas e mensagens de texto, porque as pessoas têm o seu número. Embora ele não esteja mais em Boa Vista, eles ainda empregam um homem na cidade para auxiliar e coordenar informalmente alguns dos esforços que iniciaram.

Carlos conta que admira “O Mágico de Oz” pelo que o filme ensina sobre como reconhecer os dons e o potencial das pessoas. No entanto, através desse processo, ele e Vânia também descobriram novas habilidades, incluindo a capacidade de ajudar pessoas sem nada a terem a esperança de que, um dia, elas verdadeiramente poderão dizer as palavras “não há lugar como o lar”, mesmo em uma terra estrangeira. 

Esta história foi publicada na edição de março da Deseret Magazine [em inglês]. Saiba mais sobre como fazer sua assinatura.

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