O estudo do Velho Testamento pode proporcionar grande aprendizado e fortalecimento espiritual.

O Velho Testamento nos leva de volta aos primórdios, onde Deus define os propósitos de Suas criações. Histórias individuais ocorrem dentro de uma estrutura maior, na qual “as escrituras ensinam: ‘E a verdade é o conhecimento das coisas como são, como foram e como serão’. A verdade olha para o passado e para o futuro, expandindo nossa perspectiva do presente”, disse Élder Neil L. Andersen, do Quórum dos Doze Apóstolos (“Os olhos da fé”, conferência geral de abril de 2019).
Reconhecer a perspectiva através da qual devemos enxergar o Velho Testamento, a obra de Deus “para levar a efeito a imortalidade e vida eterna” de Seus filhos (Moisés 1:39), pode dar propósito aos nossos estudos e nos ajudar a compreender melhor a relevância do Velho Testamento hoje.
Por meio dos eventos, às vezes difíceis, que encontramos em suas páginas, essa perspectiva pode nos ajudar a focar no que Deus está tentando realizar agora e sempre tentou realizar com seus filhos.
Ao nos aproximarmos do Velho Testamento por meio do “estudo e pela fé” (Doutrina e Convênios 88:118), seguem algumas coisas que podem nos ajudar a estar em uma posição melhor para experimentar um crescimento espiritual.
Contexto
Ver o Velho Testamento dentro de seus próprios contextos históricos e revelatórios — buscando compreender o contexto das revelações, ensinamentos e instruções, assim como a intenção do autor — pode abrir novas avenidas de compreensão e permitir que o Espírito fale conosco e confirme a verdade.
A distância cultural, linguística e histórica que pode tornar o Velho Testamento difícil de entender é muito real. Foi talvez parcialmente sob essa luz que o Senhor revelou ao Profeta Joseph Smith durante sua tradução da Bíblia: “E, em verdade vos digo que é minha vontade que deveis apressar-vos a traduzir minhas escrituras e a obter um conhecimento de história, e de países, e de reinos, de leis de Deus e dos homens, e tudo isso para a salvação de Sião” (Doutrina e Convênios 93:53).

Com anjos citando escrituras do Velho Testamento (Joseph Smith—História 1:36–41) e o aparecimento de profetas do Velho Testamento “anunciando sua dispensação, seus direitos, suas chaves, suas honras, sua majestade e glória e o poder de seu sacerdócio; dando linha sobre linha, preceito sobre preceito; um pouco aqui, um pouco ali; dando-nos consolação pela proclamação do que está para vir, confirmando nossa esperança!” (Doutrina e Convênios 128:21), parece imprescindível compreendermos melhor esses antigos profetas e suas profecias. Como a compreensão desse contexto é tão importante, a Igreja produziu novos recursos para nosso estudo do Velho Testamento este ano, agora traduzidos para 15 idiomas (Auxílios de Estudo: Velho Testamento).
Busque o Espírito
Buscar a orientação do Espírito, juntamente com os ensinamentos das escrituras e dos profetas vivos, é inestimável e essencial em nossa abordagem ao Velho Testamento.
Ao tentarmos aprender mais sobre as circunstâncias das escrituras, podemos fazer perguntas como:
- Quando foram feitas as revelações?
- Por quem e para quem?
- O que precipitou a revelação?
- Qual era o contexto mais amplo que levou à revelação?
- E, da perspectiva de Deus, quais eram os resultados desejados e a intenção das revelações?
Essas perguntas podem levar à revelação pessoal, à medida que o Espírito explica e testifica das verdades reveladas nas escrituras e pelos profetas.
Leia com sensibilidade

Ler o Velho Testamento com sensibilidade, tanto aos momentos altos quanto aos baixos, momentos espiritualmente edificantes, assim como episódios absolutamente devastadores, e tentar vivenciar as emoções positivas e negativas junto com os participantes pode gerar compaixão por todos os envolvidos e permitir que a revelação nos toque por meio de uma variedade de experiências.
Por meio do meu estudo do Velho Testamento, minha fé se fortaleceu ao refletir sobre os eventos espiritualmente edificantes e também sobre os mais trágicos encontrados em suas páginas. Analisar os desafios enfrentados pelas pessoas, sua incerteza em meio às provações e ao desânimo, ao perigo e ao desprezo, à tristeza e à tragédia, pode humanizar nossa experiência com o Velho Testamento.
A dor vivenciada pelas pessoas do Velho Testamento, particularmente o sofrimento ou negligência das viúvas ou de mulheres como Rute, Ana ou as mulheres do livro de Juízes, não pode ser minimizada, marginalizada ou ignorada, e a sensibilidade a essa realidade pode trazer compaixão e o desejo de corrigir as injustiças que encontramos hoje.
Por meio desse processo, podemos sentir o poder das revelações de Deus, Sua orientação, Sua consciência e Sua compaixão. Podemos sentir o peso da justiça e da injustiça, e o alívio da misericórdia e da esperança.
Reflexão
Minha fé e confiança em Deus foram fortalecidas ao refletir sobre Suas ternas interações com Eva e Adão, quando Ele lhes fez perguntas que os conduziriam de volta a Ele, mesmo quando a inclinação dos dois era se esconder. Sua voz gentil e convidativa, “Aonde vais?” (Moisés 4:15), quando eles estavam com medo, me deu coragem para me aproximar, vê-Lo e ouvi-Lo quando estou aflito, me sinto perdido ou preciso de direção ou consolo.
Fui fortalecido pela resposta compassiva e alegre de Deus ao enviar um Salvador, Seu Filho, Jesus Cristo, para redimir toda a humanidade. Essa resposta fez com que Eva e Adão se regozijassem ao experimentarem “a alegria da redenção e a vida eterna” (Moisés 5:11) que Deus lhes havia concedido. Essas passagens me deram a coragem e a força para levantar da cama todos os dias com mais esperança e um propósito mais firme.
Minha relação com Deus e seu Filho foi fortalecida à medida que li e senti o Espírito quando Enoque testemunhou Deus chorando pelas enchentes que estavam por vir, levando Enoque a refletir: “Como é que podes chorar?” (Moisés 7:28-29).
Embora nossa percepção do Deus do Velho Testamento possa inicialmente nos levar a sentimentos de um Deus severo e com pouca compaixão, as histórias revelam algo diferente se mergulharmos profundamente em seus contextos. Observar as emoções de Deus levou Enoque do pranto e da recusa em ser consolado (Moisés 7:44) às visões da salvação e redenção do Salvador, nas quais ele recebeu uma “plenitude de alegria” (Moisés 7:67). Essa sequência de eventos fortaleceu minha fé para buscar respostas em Deus e confiar na missão de Jesus Cristo de me trazer paz em meio às minhas lágrimas e questionamentos sobre a vida.
Meu testemunho de Deus e de Seu Filho, Jesus Cristo, foi fortalecido pelo consolo que eles trouxeram a Sara, Agar, Raquel e José. Minha fé foi fortalecida por Rute, que declarou a Noemi: “Aonde quer que tu fores, irei eu... o teu Deus é o meu Deus” (Rute 1:16). A influência de Rute é incalculável. Fico admirado com a sua resposta a uma vida que enfrentaria desafios como forasteira, viúva e estrangeira. Mesmo assim, ela trilhou um caminho de retidão que uniria uma comunidade.

Eu senti o amor de Deus através da tristeza, dor e eventual alívio de Hannah. A dor dela foi continuamente exacerbada por tratamentos severos e deturpações de outros, mas curada na fé dela e nos apelos a Deus.
Ganhei confiança ao ler as experiências e revelações de Sara e Abraão, que os prepararam para os horrores do Egito e o altar de Jeová-Jiré (Gênesis 22:14), o lugar onde Abraão demonstrou sua disposição a sacrificar seu próprio filho, cujo nome reflete a aparição ou provisão de Deus, do carneiro resgatador preso no arbusto. As adversidades enfrentadas por indivíduos e povos, e a paz que Deus lhes concedeu, continuam a abençoar minha vida hoje.
Perspectiva
Embora as histórias do Velho Testamento possam ser difíceis de se entender e até mesmo nos levar a ter sentimentos negativos em relação a elas, algo que tem me ajudado a fortalecer a fé, em vez de enfraquecê-la, é abordar episódios aparentemente incompreensíveis com a seguinte mentalidade: se há algo que eu não entendo, é a minha imperfeição de conhecimento, não a de Deus.
Não culpo a Deus nem atribuo a Ele fraqueza, maldade ou descaso humanos. Aprendi a amar nosso Pai Celestial onisciente, e o que não entendo é a minha falha, não a Dele.
Quando surgirem dúvidas, o que inevitavelmente acontecerá, escolho não permitir que o que desconheço defina a fé, mas sigo o conselho de Élder Dieter F. Uchtdorf, do Quórum dos Doze Apóstolos: “Duvidem de suas dúvidas antes de duvidarem de sua fé. Jamais podemos permitir que a dúvida nos aprisione e nos impeça de receber o divino amor, a paz e as dádivas que vêm por meio da fé no Senhor Jesus Cristo” (“Venham, juntem-se a nós”, conferência geral de outubro de 2013).
Não tento minimizar as dificuldades; busco indagar e compreender o bem e o mal com fé em Jesus Cristo. Quando me deparo com passagens que não fazem sentido para mim, tento declarar: “O que não vejo, ensina-mo [T]u” (Jó 34:32).
Foi nessa busca que encontrei Deus, e as histórias do Velho Testamento se tornaram oportunidades para encontrar simplicidade em meio à complexidade (ver Steven C. Harper, “Como me tornei alguém que busca”, devocional da Universidade Brigham Young, 8 de junho de 2021 – em inglês). Essas abordagens me aproximaram de nosso Pai Celestial e de Seu Filho, Jesus Cristo, e me deram direção à minha vida e à minha jornada de fé. Estudar o Velho Testamento fortaleceu minha fé em Deus e em Seu Filho, de inúmeras maneiras inesperadas, e abriu caminhos para que eu Os ouvisse melhor.
— Aaron Schade é professor de Escrituras Antigas da Universidade Brigham Young.
