Na época em que a venezuelana Marlene Hernandez tinha 12 anos e se converteu à A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, ela perdeu a mãe. Logo depois disso, ela desenvolveu uma paixão por pesquisar sua genealogia. Após realizar entrevistas com familiares, ela compilou os dados em um livro.
Mas quando se mudou para os Estados Unidos já adulta, ela perdeu o livro e pensou que nunca mais recuperaria as informações. Um dia, trabalhando como cientista da computação, ela decidiu tirar duas semanas de folga e ver o que conseguiria encontrar na Biblioteca de História da Família em Salt Lake City, Utah. Inesperadamente, Hernandez encontrou todas as informações que havia perdido anteriormente e muito mais.
Os registros que Hernandez encontrou estão entre os mais de 5 bilhões de imagens de registros digitais publicadas no FamilySearch desde a sua criação em 1999.
Por trás desse número, uma equipe de curadores em Salt Lake City, vindos de lugares tão distantes como a Coreia e o Cazaquistão e agora acompanhados por Hernandez, supervisionam a digitalização de registros em todo o mundo, um processo no qual dizem ter visto a “mão de Deus” fazer milagres, enquanto eles tentam “acelerar o trabalho.”

Acelerando o trabalho
Em 29 de fevereiro, os curadores do FamilySearch, MarleneHernandez, Sean Canny, Hyewon Lee, Megan McClanahan, Irina Anderson e Katie Poppleton, apresentaram [em inglês] na RootsTech, mais de 30 coleções de registros novos e futuros. Estas coleções de imagens digitais e nomes pesquisáveis vêm de mais de uma dúzia de países. Em 2023, o banco de dados gratuito do FamilySearch de nomes e imagens pesquisáveis em registros históricos cresceu para 18,36 bilhões, superando os 16,88 bilhões em 2022.
“Estamos tentando acelerar o trabalho. Queremos que todas as pessoas no mundo tenham acesso a esses registros”, disse Canny, gerente de contas globais do FamilySearch.
Canny credita a indexação assistida por computador como um dos principais contribuintes para o aumento constante de nomes pesquisáveis. O Censo do Canadá de 1931, divulgado em 2023, foi indexado inteiramente com inteligência artificial aplicada pelo Ancestry.com [em inglês], com o FamilySearch validando os dados.
Embora a maior parte da indexação ainda seja feita por pessoas, o objetivo do FamilySearch é eventualmente enviar todas as imagens por meio da indexação assistida por computador (CAI).
Mas a IA só pode substituir parte do processo. O processo de publicação começa com gerentes de contas e gerentes de relações de campo, supervisionados pelos gerentes de curadoria em Salt Lake City, que localizam registros de interesse e iniciam contato com arquivistas.
“Eles vão aos arquivos e dizem: ‘Ei, adoraríamos digitalizar suas coleções e torná-las visíveis em nosso site gratuitamente’”, disse Canny.
O FamilySearch acomoda organizações que preferem manter seus registros em suas próprias plataformas, com organizações sem fins lucrativos muitas vezes concordando em direcionar os usuários para outras plataformas com um link.
“Pode haver momentos em que os registros possam ser mostrados no FamilySearch, após um determinado período de tempo, ou em que os compartilharemos”, disse McClanahan, gerente de curadoria de coleções digitais, “mas queremos que essa informação seja divulgada apenas para que as pessoas possam encontrar e construir suas árvores genealógicas.”
A mão do Senhor

McClanahan passa grande parte de seu tempo ajudando a negociar contratos com parceiros corporativos. Os funcionários do FamilySearch são incentivados a orarem por seus projetos, e ela diz que isso tem sido fundamental para superar obstáculos, aparentemente intransponíveis, que ocasionalmente ocorrem nas negociações.
“Eu sei absolutamente que é a mão do Senhor”, disse McClanahan, “tive reuniões com pessoas em que uma noite saímos da reunião e… parecia que nunca conseguiríamos os registros, e quando nos reunimos novamente na manhã seguinte, eles haviam mudado de ideia.”
O objetivo dos curadores, disse Canny, é aumentar a cobertura de registros para áreas onde novos templos estão em desenvolvimento.
“Queremos que os membros sintam o espírito de Elias” e levem os nomes de seus próprios familiares ao templo, disse ele.
Dezenove templos foram anunciados ou estão em construção para a África e Oriente Médio, lugares onde qualquer publicação de registros, ele considere um milagre, embora recentes desenvolvimentos promissores o encorajem.
O FamilySearch publicou recentemente registros populacionais do final do século XIX e início do século XX de Nablus, na atual Cisjordânia.
Nos próximos anos, eles esperam publicar registros do período Otomano da Palestina, registros da Igreja Católica da Síria, Egito e Tunísia, registros da comunidade judaica de Israel, da igreja caldeia, registros maronitas libaneses e histórias orais curdas.
Na República Democrática do Congo, os funcionários do FamilySearch concluíram a digitalização dos cartões de identificação nacional a partir de 1884, apenas uma semana antes de uma enchente devastar o arquivo.
“Esses são milagres para mim”, disse Canny, acrescentando: “Acredito que o Espírito Santo é nosso companheiro neste trabalho. … E acredito que os nomes que estamos digitalizando, a vida dessas pessoas, são importantes. E cada um deles tem o direito de ser lembrado.”
Preservação

A destruição de registros físicos em todo o mundo, seja devido a desastres naturais, má manutenção ou gerentes de escritório que desejam liberar espaço, é uma grande preocupação para os curadores.
McClanahan se lembra de ter visto a foto de um arquivo na Itália, onde os registros estavam empilhados em cima de vasos sanitários. E embora muitos registros anteriores tenham sido fotografados em microfilme, os detalhes se perdem nas imagens em preto e branco, especialmente quando são feitas cópias.
A urgência os motiva a digitalizar os registros, mesmo quando não conseguem publicá-los imediatamente.
Em muitos países asiáticos, as leis de privacidade de dados dificultam a publicação de registros.
Lee, uma curadora da Ásia, disse que nesses países, eles agora digitalizam muitos dos registros e armazenam os ficheiros lá, protegendo os dados da perda de informação enquanto aguardam permissão para tornarem os documentos públicos.
Nativa da Coreia do Sul, Lee começou a estudar a história de sua família ainda jovem, usando livros de genealogia coreanos chamados jokbo. Ela começou sua carreira nos arquivos da Igreja antes de assumir seu cargo atual há quatro anos.
Guiados em suas funções

Em 2023, Lee disse à amiga, Irina Anderson, que ajudaria na RootsTech. Integrante da equipe financeira do departamento de serviço global da Igreja, a curiosidade de Anderson sobre o evento logo se transformou em uma inspiração, de que ela deveria fazer parte do FamilySearch. Ela ingressou em agosto e agora é curadora das regiões da Europa Central e Norte. Quanto mais tempo ela permanece nesse papel, diz ela, mais sente que Deus a quer lá.
Anderson nasceu no Cazaquistão, mas foi criada por 10 anos na Ucrânia, onde sua família se filiou à Igreja quando ela tinha 5 anos de idade. Anos mais tarde, seu pai se sentiu inspirado a levar a família de volta ao Cazaquistão, para ajudar a estabelecer a Igreja ali. Quando se mudaram para a capital, Astana, se tornaram a primeira família nativa do país.
Embora nenhum registro tenha sido publicado atualmente no Cazaquistão, Anderson tem esperança de que, um dia, tudo isso mudará.
“Espero que, de alguma forma, talvez o fato de eu ser daquela parte do mundo nos ajude a colocar as mãos nesses registros, porque eu adoraria construir minha família (árvore)”, disse Anderson.
Ela é encorajada pelos sucessos que testemunhou em outras partes da antiga União Soviética. O FamilySearch divulgou recentemente registros de filtragem da Ucrânia, registros de ucranianos suspeitos de deslealdade, presos pela antiga União Soviética entre 1943 e 1952.
Estes são alguns dos únicos registros publicados na Ucrânia contendo pessoas vivas, disse Anderson, uma vez que um registo precisa ter pelo menos 75 anos para ser publicado, de acordo com as leis do país.
“Sinto que o Pai Celestial está preparando o caminho” para a publicação de registros no Cazaquistão, disse ela.
Canny também sente que foi divinamente orientado para seu trabalho, por meio do qual passou a ver a história da família como “o maior trabalho que temos na Terra.”
“Doutrina e Convênios (128:24) diz que precisamos apresentar a Cristo, quando Ele vier, um registro de nossos mortos que seja digno de toda aceitação.”
Ele disse que a equipe frequentemente se refere a 1 Néfi 21:8-9, que fala sobre Deus libertando aqueles que estavam na prisão espiritual, e lhes concedendo uma herança.
“É o nosso foco e definitivamente vejo a mão de Deus neste trabalho.”

