Uma única foto mudou o rumo da vida de Tara Roberts.
Em 2016, enquanto morava em Washington, D.C., Roberts visitou o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana. Foi lá que ela viu uma foto de mergulhadoras, predominantemente mulheres negras, sorrindo juntas em um barco.
Apesar da natureza comum da foto, Roberts disse que ela chamou sua atenção imediatamente. Logo descobriu que as mergulhadoras faziam parte de um grupo chamado Diving With a Purpose [Mergulhando com um propósito – em inglês], uma organização sem fins lucrativos que explora navios negreiros naufragados, recupera os artefatos que consegue encontrar e preserva as histórias dos passageiros desaparecidos.
Embora nunca tivesse mergulhado antes, Roberts entrou em contato com a Diving With a Purpose, que a convidou para participar. Mais tarde, ela também recebeu uma bolsa da National Geographic, que lhe permitiu viajar para mergulhos em diversos lugares ao redor do mundo. Ela já passou oito anos mergulhando em busca de destroços de navios negreiros.
Roberts compartilhou suas experiências durante seu discurso na RootsTech 2026, na sexta-feira, 6 de março. Sua mensagem explorou a importância de se sentir conectado aos antepassados e de como essas conexões impactam as pessoas vivas.
Em seu discurso, Roberts afirmou que as pessoas que morreram em navios negreiros não eram estatísticas ou vítimas sem rosto; eram mães, pais, sonhadores, agricultores, poetas, matemáticos, cientistas e muito mais.
“Comecei a pensar… ‘E se eu pudesse ajudar a trazer à tona suas histórias, em toda a sua plenitude e encanto?’”, disse Roberts. “‘Com amor, com honra, com respeito e, finalmente, ajudar a curar uma ferida que se alastrou neste mundo por tanto tempo?’ Esta, para mim, é a promessa deste trabalho.”
Restaurando a história
Roberts afirmou que 12.000 navios participaram do comércio transatlântico de escravos, transportando 12,5 milhões de africanos para as Américas. Ela também disse que 1,8 milhão de africanos morreram durante a travessia marítima, número que não inclui aqueles que morreram a caminho dos navios ou nas Américas.
“Eu me perguntava quem estava de luto por essas pessoas”, disse Roberts. “Onde estavam os memoriais oficiais e globais para honrar suas vidas? Conforme me aprofundava nesse trabalho, comecei a perceber que havia capítulos inteiros da história que estavam faltando. E eu queria ajudar a trazer esses capítulos de volta à memória.”
Roberts tem trabalhado arduamente para fazer exatamente isso. Durante seu período na National Geographic e no projeto Diving With a Purpose, ela produziu diversos artigos e um podcast de seis episódios, todos com o objetivo de compartilhar as histórias de pessoas que foram vítimas do tráfico transatlântico de escravos.
Ela relatou a história de um navio negreiro que partiu da ilha de Moçambique e afundou na costa da Cidade do Cabo, na África do Sul, em 1794. Cerca de metade dos cativos morreu, e os restantes foram vendidos na África do Sul.
A história poderia ter terminado aí, mas uma equipe chamada Slave Wrecks Project [Projeto de naufrágios de escravos – em inglês], uma rede internacional de pesquisadores e instituições sediada no Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, da qual a Diving With a Purpose faz parte, descobriu o naufrágio em 2015.
Muitos descendentes dos cativos daquele navio ainda vivem na Ilha de Moçambique, disse Roberts, e celebraram ao saberem da descoberta do naufrágio. O chefe do povo Makua também solicitou que mergulhadores despejassem terra da ilha sobre o local do naufrágio, “para que, pela primeira vez desde 1794, [seu] povo pudesse dormir em sua própria terra.”
‘Somos parte uns dos outros’
Roberts disse que seu trabalho pode parecer difícil, triste ou traumático, mas para ela, trata-se de superar a dor para chegar a um novo lugar.
“Somos parte uns dos outros”, disse Roberts. “E se pudéssemos nos apoiar nessa conexão? Isso poderia mudar a forma como nos vemos? E se a forma como nos vemos mudar pudesse mudar a forma como as pessoas são responsáveis umas pelas outras?”
Ainda há muito a fazer: Roberts afirmou que os historiadores acreditam que existam aproximadamente 1.000 naufrágios relacionados ao comércio transatlântico de escravos, mas até o momento, menos de 20 foram encontrados e devidamente documentados.
“Para mim, esta é uma história inédita”, disse Roberts. “Ela está repleta de potencial e de oportunidades para uma cura profunda. Acredito que oferece um roteiro para compreendermos a plenitude de nossa herança coletiva.”
