Jesus Cristo apareceu a centenas de Seus seguidores durante o período de 40 dias entre sua Ressurreição e Ascensão, mas um grupo foi abençoado por ver o Cristo ressuscitado primeiro.
Na manhã seguinte à Sua Ressurreição, Ele apareceu a Maria Madalena e outras discípulas no túmulo. Surpreendentemente, as pessoas desse grupo não reconheceram Jesus imediatamente quando Ele apareceu, demonstrando que havia, e ainda há, uma importante diferença entre ver e reconhecer alguém.
Maria e as outras discípulas viram fisicamente e falaram com um homem, que era Jesus Cristo; no entanto, elas não reconheceram Sua verdadeira identidade até que Ele abriu seus olhos espirituais.
As ações dessas discípulas após a morte do Salvador indicaram que elas tinham certas expectativas em relação ao Senhor. Elas esperavam que Ele continuasse a ensiná-las até que compreendessem a plenitude de Seu evangelho e que as liderasse como o líder de Sua nova Igreja na Terra.
Contudo, três dias após a Sua crucificação, as discípulas foram ao Seu túmulo também esperando encontrar o corpo do Jesus morto. Essas expectativas conflitantes geraram sentimentos de tristeza, decepção e confusão.

Foi somente através da aparição de Cristo, ressuscitado, a Maria e às outras discípulas que suas expectativas equivocadas foram corrigidas, permitindo-lhes reconhecer o Salvador ressuscitado e reagir com sentimentos de felicidade e paz.
Como discípulos de Cristo, temos muito em comum com Maria e com as outras discípulas. Todos nós temos certas expectativas inconsistentes em relação ao Senhor e à Sua Igreja, que, quando não são atendidas de acordo com nossa limitada compreensão mortal, podem obscurecer nossa visão do Salvador, de modo que, mesmo quando Ele está perto o suficiente para que O “vejamos”, não O reconhecemos verdadeiramente.
Mas se estudarmos como Jesus Cristo abriu os olhos espirituais de suas discípulas, poderemos corrigir nossas próprias expectativas equivocadas, reconhecer sua verdadeira identidade como nosso Redentor e reagir com os mesmos sentimentos de alegria e esperança.
‘Por que buscais o vivente entre os mortos?’
Na manhã seguinte à ressurreição de Jesus Cristo, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, Salomé, Joana e outras discípulas foram ao túmulo para ungir o corpo do Senhor com óleos e especiarias.
Embora o buscassem com intenções justas, esperavam, erroneamente, encontrar seu corpo ainda no sepulcro. Ao encontrá-lo vazio, suas expectativas frustradas lhes causaram tristeza e confusão.
Os anjos logo apareceram para corrigir essas expectativas equivocadas, perguntando: “Por que buscais o vivente entre os mortos?” (Lucas 24:5)

Os anjos continuaram: “Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando [E]le ainda na Galileia, dizendo: Convém que o Filho do Homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e ao terceiro dia ressuscite” (Lucas 24:6-7).
As mulheres se lembraram daquelas palavras do Senhor. No entanto, seu foco estava tão voltado para o julgamento e a crucificação que perderam de vista a verdade mais importante: que Ele ressuscitaria.
Os anjos explicaram que Jesus estaria entre os vivos, continuando sua obra. Se O procurassem ali, no lugar certo, os anjos prometeram que as discípulas O veriam em breve.
‘Ver’ fisicamente e ‘reconhecer’ espiritualmente
No Evangelho de João, é narrada a experiência de Maria Madalena junto ao sepulcro.
Após sua interação com os anjos, ela se virou “e viu Jesus em pé, porém não sabia que era Jesus”, demonstrando que há uma diferença entre “ver” Jesus fisicamente e “reconhecê-lo” espiritualmente (João 20:14).
A palavra grega traduzida como “viu” (theōrei) neste versículo está relacionada à palavra que significa assistir a uma peça de teatro. Maria foi uma espectadora desta aparição do Senhor, observando passivamente, mas sem compreender plenamente o que via.
Então Jesus lhe disse: “Maria”, fazendo com que ela se virasse fisicamente para Ele e o chamasse pelo seu título, Raboni, que significa “mestre” ou “professor” (João 20:16).
Nesse momento, Maria se transformou de espectadora passiva em participante ativa. Ela não reconheceu o Senhor até que se voltou fisicamente para Ele, simbolizando a transição necessária para desenvolver um relacionamento pessoal com o Salvador.

Mais tarde, quando Maria contou aos outros discípulos sobre essa experiência, ela proclamou: “Eu vi o Senhor”, com a palavra grega “vi” (heōraka), referindo-se não apenas ao ver com os olhos físicos, mas também ao ver com uma percepção espiritual que leva à compreensão (João 20:18).
Contudo, Maria ainda identificava Jesus conforme suas expectativas terrenas de que Ele fosse seu Raboni, ou mestre. Ela esperava que Jesus estivesse fisicamente presente em sua vida, instruindo-a sobre o Seu evangelho, até que ela e as outras discípulas pudessem alcançar uma compreensão plena.
Mas o Senhor instruiu Maria a “não me tocar” (mē mou haptou), com a Tradução de Joseph Smith alterando o versículo para “não me detenhas”, esclarecendo que a palavra grega se referia não apenas ao toque, mas ao mais poderoso “apegar-se” ou “agarrar-se” (João 20:17).
O Salvador quis dizer que Ele nem sempre estaria fisicamente presente, mas sim espiritualmente, à medida que Maria crescesse em conhecimento. O Senhor seria sempre seu Raboni, seu mestre, mas ela precisaria buscar Sua presença, por meio do Espírito, para uma compreensão mais profunda.
Alegria em vez de tristeza
Jesus também dirigiu apenas uma palavra às outras discípulas. Ele as cumprimentou com “saudações” (chairete), uma palavra relacionada à raiz grega de “alegria” ou “satisfação” (Mateus 28:9).
Estas discípulas foram então até o Senhor, se prostraram a Seus pés e O adoraram, demonstrando as conexões entre reconhecer o Salvador, adorar e alegrar-se.
Estes sentimentos de alegria, esperança e júbilo representaram uma grande mudança em relação aos sentimentos anteriores de tristeza, medo e confusão, associados a expectativas equivocadas.
A irmã Reyna I. Aburto, na época segunda conselheira na presidência geral da Sociedade de Socorro, testificou que, “por intermédio da Expiação redentora e da Ressurreição gloriosa de Jesus Cristo, corações despedaçados podem ser curados, a angústia pode se transformar em paz e o desespero pode se tornar esperança. Ele pode nos envolver em Seus braços de misericórdia, consolo e fortalecimento, e curar cada um de nós” (“A sepultura não tem vitória”, conferência geral de abril de 2021).
Reconhecer o Salvador
Como discípulos de Cristo, às vezes também temos expectativas equivocadas em relação ao Salvador, à Sua Igreja ou ao nosso caminho espiritual na vida, o que pode resultar em decepções e confusão.
Muitas vezes, como as discípulas que procuravam Cristo no túmulo, estamos olhando “para além do marco” (Jacó 4:14) e deixamos de reconhecer a verdadeira identidade do Cristo ressuscitado.
Mas, assim como aquelas discípulas, existem anjos ao nosso redor, profetas e apóstolos modernos, que nos relembram de onde procurá-Lo. Isto inclui buscá-Lo em Sua morada, a casa do Senhor, onde não apenas sentiremos Sua presença, mas também aprenderemos a reconhecê-Lo em nossa vida.

Assim como Maria, devemos nos voltar ativamente para Ele e nos tornar participantes ativos em nosso próprio aprendizado do evangelho. Então, poderemos também experimentar a esperança que vem do cultivo de um relacionamento pessoal com o Redentor.
— Krystal V. L. Pierce é professora assistente no Departamento de Escrituras Antigas da Universidade Brigham Young.
