Escondida sob os bancos de uma capela local da Igreja no leste das Filipinas, Mitzi Diaz-Chou buscou refúgio do tufão Haiyan, que atingiu a área em 8 de novembro de 2013, matando milhares de pessoas e desabrigando muitas outras.
“As janelas de vidro se estilhaçaram”, lembrou Diaz-Chou, descrevendo sua experiência escondida sob os bancos ao lado de outras crianças. “Parecia uma bomba, e o vento começou a uivar e assobiar violentamente pelo prédio. Todos choravam.”
Diaz-Chou e sua família estavam entre os mais de 10.000 santos dos últimos dias, e 4.000 outras pessoas, que buscaram abrigo em cerca de 200 capelas da Igreja na região. Quando a tempestade passou, tudo o que conheciam havia desaparecido, explicou Diaz-Chou. “As ruas estavam cheias de destroços. ... As casas foram completamente engolidas pelo mar”, disse ela, acrescentando: “Tudo parecia parado, quebrado e desconhecido.”
No entanto, mesmo em meio a tamanha devastação, Diaz-Chou reconheceu um “profundo senso de união entre os sobreviventes”, disse ela. “Aquela experiência me ensinou sobre a fragilidade da vida, o poder da fé e a resiliência do espírito humano.”


Atualmente estudando na Universidade Brigham Young-Havaí e membro do Coro de Câmara Hoʻolōkahi da universidade, Diaz-Chou descobriu um senso semelhante de união ao se apresentar ao lado de seus companheiros de coro no Carnegie Hall, na cidade de Nova York, em 11 de maio.
A apresentação estreou com uma peça de 25 minutos intitulada “Worldwide Requiem” [Réquiem Mundial], composta por Erica Glenn, professora assistente da BYU-Havaí e diretora do coro de câmara da universidade, juntamente com seus alunos. Através de seus sete movimentos, o réquiem apresentado homenageou regiões do mundo que passaram por tragédias ou desastres recentes, incluindo Filipinas, Europa Oriental, Tonga, Oriente Médio, Japão e Havaí.
Assim como Diaz-Chou, vários outros membros do coro enfrentaram algumas das tragédias retratadas na peça. Eles se apresentaram, compartilhando suas histórias como sobreviventes, por meio da música.
Diaz-Chou disse: “Preparar e executar o [réquiem] foi como finalmente dar voz a algo que eu guardava no coração há muito tempo. Não se tratava apenas de cantar notas em uma página, mas de honrar a memória daqueles que perdemos, e oferecer esperança a outros que carregam uma dor que as palavras nem sempre conseguem expressar.”
Uma ‘voz para o mundo’
Em entrevista ao Church News, Glenn, regente do coro e compositora da peça, explicou que a inspiração para compor o réquiem foi alimentada por sua admiração pela resiliência de seus alunos. Ela disse que as interações dos alunos ao longo dos anos lhe ensinaram sobre suas diversas culturas, línguas e tradições musicais, bem como sobre as tragédias pelas quais passaram.
“Escrevi este réquiem, tanto para homenageá-los e às experiências que viveram, quanto para conscientizar o resto do mundo sobre algumas das coisas que esses estudantes vivenciaram diretamente e superaram.”

Glenn continuou detalhando a composição da peça e o papel instrumental que seus alunos desempenharam em sua criação.
Ela disse que vários de seus alunos forneceram relatos de testemunhas oculares das tragédias que eles haviam experimentado, e ajudaram a traduzir o texto original em latim do réquiem, para suas línguas nativas.
Diaz-Chou foi um desses alunos. Sabendo Waray — a língua austronésia específica da área mais atingida pelo Tufão Haiyan — Diaz-Chou ajudou na tradução do movimento da peça, “Pie Jesu”, que homenageou as vítimas do tufão.
Além disso, ela forneceu a Glenn um relato de quatro páginas sobre sua experiência, que os dois transformaram em um poema e criaram uma música para um solista apresentar em inglês durante o mesmo movimento.

“Pude oferecer um pedaço da minha história e da voz do meu povo ao mundo”, disse Diaz-Chou. “A experiência realmente revive dentro de mim quando ouço as palavras que o solista canta.”
Diaz-Chou acrescentou que, contribuir com seu relato como testemunha ocular do réquiem, a ajudou a compartilhar uma história que ela mantinha escondida. “Isto me ajudou a perceber que minha experiência, por mais dolorosa que tenha sido, poderia fazer parte de uma mensagem maior de paz e solidariedade.”
Com a ajuda de alunos como Diaz-Chou, o coro conseguiu cantar em um total de oito idiomas. Seis deles estavam ligados às regiões do mundo que a peça representava, e outros dois, inglês e latim, foram intercalados ao longo da peça para ajudar os ouvintes a compreenderem a história de cada região e reter referências ao texto original.
Uma ‘luz de fé e esperança’
Ao descrever a apresentação no Carnegie Hall em Nova York, Glenn disse que foi um esforço colaborativo que exigiu “muitas pequenas peças” para se concretizar.
Ela explicou que, para que o coro cantasse com uma orquestra completa, seria necessário aumentar o grupo de cantores de 54 para pelo menos 100. Assim, convidaram outros a se juntarem e receberam o apoio de coros e pessoas de estados como Utah e Arizona. Esses cantores adicionais se prepararam individualmente, até que o coro se reunisse como um todo para ensaiar na cidade de Nova York, ao lado de solistas profissionais e do Conjunto Sinfônico da Nova Inglaterra.
“Éramos definitivamente uma mistura”, disse Glenn, observando que o grupo de artistas teve apenas oito horas, em um período de dois dias, para praticarem juntos.
No entanto, ela explicou que o grupo rapidamente se transformou de uma variedade de artistas, em uma “ohana”, ou família, no momento em que sentiram o espírito dos alunos e ouviram suas histórias.
“Havia lágrimas na sala todas as vezes, e isso transformou completamente a maneira como o coro executava estes [movimentos]”, disse Glenn. “Sentíamo-nos coesos e coletivos, e o Espírito simplesmente fluía em tudo o que fazíamos.”
Glenn disse que a fé e a bondade de seus alunos eram evidentes, na maneira como eles se comportaram e que isso impactou aqueles que se apresentaram com eles, muitos dos quais não eram membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
Ela leu as palavras de um cantor que se juntou ao coro e depois, escreveu para ela dizendo: “Achei os muitos membros e alunos [santos dos últimos dias] tão gentis e acolhedores. Adorei a maneira como oramos todos juntos antes de cantarmos. Estes alunos têm uma luz interior que brilha, uma luz de fé e esperança para o futuro.”

Da mesma forma, um violoncelista de longa data da orquestra escreveu a Glenn, dizendo que esta pode ter sido a apresentação “mais memorável” da qual ele participou desde que ele começou, em 1992, acrescentando: “Quando a música cumpre seu verdadeiro propósito como uma linguagem para se comunicar além de todas as barreiras humanas, e os presentes saem como pessoas melhores, é inesquecível.”
Estas e muitas outras cartas testificaram a Glenn sobre o impacto que seus alunos tiveram, ajudando-a a ver a maneira como Deus “reuniu esse pequeno grupo de cantores e amplificou suas vozes em um palco mundial.”
Uma parte de ‘algo eterno’
Os alunos da BYU-Havaí que participaram do coro compartilharam que a apresentação lhes ofereceu espaço para lamentarem e se conectarem uns com os outros, bem como com aqueles que morreram como vítimas das tragédias.
“Participar desse projeto foi incrivelmente edificante para mim”, disse Diaz-Chou. “Nunca esquecerei a sensação de estar naquele palco, sabendo que nossas vozes faziam parte de algo muito maior, algo eterno.”
“A música se tornou um veículo de fé”, continuou ela, “uma maneira de oferecer minha fragilidade e vê-la transformada em algo belo e sagrado.”

Rean Abancia, colega de coro e sobrevivente do tufão Haiyan, compartilhou que, embora suportar a tempestade ao lado de sua avó tenha sido doloroso, ele encontrou significado em representar aqueles que morreram no tufão, especialmente os jovens.
“Para mim, apresentar esta peça foi como uma carta de amor para aqueles que morreram nos desastres naturais”, disse ele. “Senti fortemente a sua presença. Sabia que estavam torcendo por nós.”
Abancia disse que este sentimento o levou a cantar para que suas palavras “pudessem alcançar o céu”. Ele esperava que a apresentação do coro ajudasse aqueles que faleceram a saberem que não foram esquecidos. “Eles estão em nosso coração e continuaremos a orar por eles.”

Da mesma forma, reconhecendo a presença dos “kūpuna” ou ancestrais, a participante do coro, Hiwa Walker, disse que a apresentação foi “profundamente emocionante.”
Natural do Havaí, Walker dançou hula no movimento final do réquiem, em homenagem às vítimas dos incêndios que devastaram Lahaina, em Maui, Havaí, em 2023. Durante este movimento, Walker também colocou colares de flores feitos à mão, aos pés do palco para representarem as regiões mencionadas na apresentação.
“Lá estava eu, dançando para simbolizar a união entre as nações”, disse ela, “representando uma espécie de Sião, onde pessoas de diferentes lugares do mundo se reúnem para cantarem e lamentarem juntas. O véu estava fino.”


Refletindo sobre a mensagem e o impacto de sua apresentação, Walker e Abancia disseram que esperam que sua apresentação tenha aberto os olhos das pessoas além de suas próprias vidas.
“É fácil ficarmos presos em nosso próprio mundo e esquecermos o panorama geral”, disse Walker. “Mas há tanta coisa acontecendo na vida das outras pessoas.”
Da mesma forma, Diaz-Chou reconheceu que muitas pessoas carregam histórias de luta e perda. Ela expressou a esperança de que os participantes se sentissem “consolados, reconhecidos e inspirados.”
“A dor é universal, mas a compaixão também”, disse ela. “Independentemente de compartilharem ou não a mesma história, espero que tenham ouvido a mensagem de que há cura após a tristeza, luz após a escuridão e união na diversidade.”



