Quando eu era criança, minha avó sempre tinha livros de colorir em casa para que meus irmãos e eu pudéssemos colorir sempre que íamos visitá-los.
Ela também nos fornecia canetinhas, giz de cera ou tintas solúveis em água para usarmos nesses livros de colorir.
Adorávamos dar vida aos contornos em preto e branco com cores. Lembro-me de me sentir um artista incrível a cada obra-prima que concluía.
No ensino fundamental e médio, tive muitas aulas de arte e aprendi a desenhar e pintar sem a ajuda de linhas predeterminadas, como as que eu tinha naqueles livros de colorir. Era muito mais difícil tirar algo da minha cabeça e criar uma imagem em uma tela em branco.
Um colega do ensino médio trouxe um quadro para a aula, dizendo que o havia pintado em casa. Alguns de nós ficamos céticos, pois aquele aluno geralmente não fazia quase nada em sala de aula.
O professor pegou a pintura nas mãos, aproximou-a do rosto e, em seguida, sacou um canivete. Ele raspou a tinta e descobriu que o papel sob ela guardava um segredo que meu colega logo lamentaria.
O professor, com seus anos de experiência, percebeu algo que nós não tínhamos notado. Sua curiosidade o levou a descobrir que a pintura do aluno havia sido feita sobre uma imagem impressa já existente.
Essa história me veio à mente recentemente, quando a Igreja esclareceu o uso da inteligência artificial em relação ao fortalecimento do testemunho ou da fé em Jesus Cristo.
“A IA não pode substituir o esforço individual ou a inspiração divina necessários para o crescimento espiritual pessoal, ou para o desenvolvimento de relacionamentos genuínos com Deus e outras pessoas”, afirma a nova seção do Manual Geral.
Será que as ferramentas de IA conseguem produzir um discurso, uma aula ou um testemunho se receberem os prompts corretos? Talvez consigam fornecer frases e parágrafos e, em alguns casos, livros sobre um determinado tema. Mas não conseguem oferecer um testemunho.
Dirigindo-se aos jovens adultos em novembro de 2024, Élder David A. Bednar, do Quórum dos Doze Apóstolos, comentou sobre as oportunidades e os riscos do uso da IA.
“A inteligência artificial tem o potencial de diminuir e sufocar nosso arbítrio moral”, disse ele.
A batalha por esse arbítrio ocorreu há muito tempo, antes mesmo de qualquer um dos filhos do Pai Celestial ter um corpo mortal. A proposta de que cada filho espiritual de Deus pudesse vir à Terra e agir perfeitamente, sem a oportunidade de escolher por si mesmo, foi um plano proposto pelo adversário.
Não estamos aqui para fazermos uma versão mortal de pintura por números ou de um livro de colorir, nem para simplesmente pintarmos sobre um modelo já existente.
Um testemunho é pessoal e resulta do exercício da capacidade moral de se tomar decisões corretas e de se arrepender quando decisões erradas são tomadas.
O manual explica esse princípio.
“A IA não pode substituir o dom da inspiração divina nem o esforço individual necessário para recebê-la. No entanto, a IA pode ser uma ferramenta útil para melhorar o aprendizado e o ensino”, diz (38.8.47.1).
A seção também inclui uma dúzia de referências bíblicas do Novo Testamento, do Livro de Mórmon e de Doutrina e Convênios.
Em uma dessas referências, o Salvador diz: “Nada faço por [M]im mesmo; mas falo assim como o Pai [M]e ensinou” (João 8:28).
Jesus Cristo agiu por si mesmo após ter recebido instruções do Pai Celestial. Como o Salvador perfeito, Ele seguiu todos os mandamentos de Deus.
“Eu faço sempre o que [L]he agrada”, continuou o Salvador (João 8:29).
Ao seguirem os mandamentos e fazerem e guardarem convênios sagrados com Deus, as pessoas usam seu arbítrio para se tornarem aquilo que o Pai Celestial deseja que se tornem. E Ele lhes dá poder para continuarem a tomar decisões melhores em suas vidas.
Presidente D. Todd Christofferson, agora segundo conselheiro na Primeira Presidência, disse na conferência geral de outubro de 2014: “Devemos nos regozijar (e já nos regozijamos) com o plano ordenado por Deus que nos permite fazer nossas próprias escolhas para agirmos por nós mesmos e vivenciar as consequências.”
Sou grato ao Pai Celestial por nos dar a oportunidade de viver e escolher. E embora a IA possa ser mais uma ferramenta para nos ajudar a aprender com as escrituras ou com as palavras dos profetas e apóstolos modernos, sei que Ele espera que façamos nossas próprias escolhas e não entreguemos nosso arbítrio a outras pessoas, sistemas ou máquinas.
Como Presidente Christofferson continuou naquele mesmo discurso, devemos participar de boa vontade, nos esforçando para seguir o exemplo do Salvador e nos beneficiar de Sua Expiação.
“Por meio da Expiação de Jesus Cristo e de Sua graça, nossos fracassos em viver a lei celestial perfeita e consistentemente na mortalidade podem ser apagados e podemos desenvolver um caráter semelhante ao de Cristo. A justiça, no entanto, exige que nada disso aconteça sem nosso consentimento e sem a nossa participação.”
— Jon Ryan Jensen é editor do Church News

