Quando a mãe de Sheri Dew faleceu durante o verão de 2020, a força policial de sua pequena cidade natal, Kansas, insistiu em escoltar o carro funerário até o cemitério.
No caminho para lá, a irmã Dew olhou pela janela e viu uma mulher que havia parado o carro e estava com a cabeça baixa enquanto a procissão passava. O gesto levou a irmã Dew às lágrimas.
“Não tenho ideia de quem ela era. … Não sei nada sobre ela”, disse a vice-presidente executiva da Deseret Management Corporation e ex-membro da presidência geral da Sociedade de Socorro.
“Mas naquele pequeno momento, vi profunda reverência e respeito demonstrados por aquela mulher desconhecida.”
Essa imagem, de uma desconhecida à beira da estrada, prestando homenagem a outra desconhecida, permaneceu “gravada” na mente e no coração da irmã Dew por dois motivos, disse ela. Um deles é que foi simplesmente um momento de ternura em um dia difícil. Mas o outro foi a forma como aquela mulher refutou os estereótipos da mídia sobre as pessoas de fé.
“Com que frequência... quando você consome qualquer tipo de mídia, você vê esse tipo de representação desse tipo de pessoa?”, a irmã Dew perguntou, acrescentando: “Aposto que há muito mais mulheres [desse tipo] neste país do que pensamos. Mas provavelmente não é... [assim que] sempre as vemos representadas [na mídia].”
A irmã Dew explorou as interações entre a religião e a mídia na quarta-feira, 3 de abril, durante um fórum do Instituto Wheatley [em inglês] da Universidade Brigham Young, intitulado “The Intersection of Faith, Media and Wellness” [A interseção entre fé, mídia e bem-estar – em inglês].
É um assunto no qual a irmã Dew pensa com frequência, dada a sua função profissional. Propriedade de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a Deseret Management Corporation abrange o Deseret News, Deseret Magazine, Church News, KSL-TV e KSL NewsRadio e outros meios de comunicação.
Ela também opera a Radiant Foundation, uma organização sem fins lucrativos que defende a expressão da fé. Cerca de dois anos e meio atrás, disse a irmã Dew, a Radiant Foundation começou a explorar como a religião é tratada pela mídia.
“Tenho pilhas e pilhas de artigos onde a imprensa nacional tentou falar sobre alguma faceta [de] Deus ou religião ou fé... e isso sempre me pareceu distorcido”, disse a irmã Dew, acrescentando: “Nós decidimos tentar dizer: ‘Poderíamos fazer a diferença? Poderia a nossa pequena empresa fazer a diferença na forma como a religião e as pessoas de fé... são tratadas pelas várias formas de mídia?’
Ajudar a fé e a mídia a se conectarem
Foi com essas questões em mente que a irmã Dew ajudou a lançar a Faith & Media Initiative [Iniciativa Fé e Mídia – em inglês] através da Radiant Foundation. O projeto “conecta e fornece recursos a uma rede global de membros da mídia, criadores de conteúdo, líderes religiosos e membros da comunidade para garantir uma representação precisa e equilibrada de todas as religiões em notícias e entretenimento”, de acordo com seu site.
A irmã Dew citou um estudo do Pew Research Center [em inglês], que descobriu que 84% da humanidade se identifica com uma religião. Apesar disso, 63% das histórias religiosas são negativas, sensacionais ou intentam causar divisão, de acordo com uma pesquisa de 2022 da Faith & Media Initiative [em inglês], que utilizou inteligência artificial para extrair dados de mais de 30 milhões de documentos on-line. Os mesmos dados mostram também que apenas 20% dos jornalistas sentem que compreendem as nuances da religião.
A irmã Dew apontou as salas de redação, cada vez mais seculares, como parte do problema: é simplesmente difícil encontrar pessoas de fé no jornalismo. Muitos editores parecem priorizar histórias de fé apenas se houver crime, escândalo ou trauma envolvido, disse ela.
Além disso, a difícil situação econômica das salas de redação fez com que muitos cargos de reportagem religiosa fossem eliminados. Para os jornalistas que ficaram para trás, “há o medo de errar e a religião se tornou politizada em muitos contextos... Então, [se] uma pessoa que não acredita na fé e tenta escrever sobre fé, isso é simplesmente um território completamente estranho para ela.”
As religiões poderiam ajudar umas às outras um pouco mais nesse aspecto, disse a irmã Dew, fornecendo porta-vozes confiáveis ou pessoas comuns dispostas a falarem sobre a sua fé, que pudessem ajudar os jornalistas a verem que há um público para uma gama mais ampla de histórias religiosas.
A pesquisa também apoia o desejo de mais histórias sobre fé. Em um estudo divulgado este ano, a Faith & Media Initiative entrevistou cerca de 10.000 consumidores de entretenimento [em inglês] em 11 países, e conduziu 30 entrevistas aprofundadas com líderes da indústria do entretenimento.
O estudo descobriu que 80% das pessoas desejam que a indústria do entretenimento torne as suas representações de fé mais precisas, e 68% dos consumidores de entretenimento querem perspectivas de fé mais diversificadas.
Para ajudar a criar uma indústria de notícias que conduza histórias de fé, a irmã Dew disse que a Faith & Media Initiative treinou mais de 1.300 jornalistas em locais como a Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia, o National Press Club, o Google News Lab na Cidade do México e muito mais.
A iniciativa também participou de grandes encontros empresariais e de comunicação social em Nova York, Londres e Abu Dhabi. A irmã Dew disse que a iniciativa firmou um acordo com a revista Forbes, que fará com que a revista produza sua primeira lista de organizações e influenciadores que incorporam a religião em seus negócios.
Ela se lembrou de uma conversa com Seth Cohen, diretor de impacto da Forbes, na qual os líderes da Faith & Media Initiative perguntaram por que a Forbes se importa com a fé. Sua resposta foi: “Bem, vocês fizeram com que nos importássemos.”
“É surpreendente quantos indivíduos existem... trabalhando para grandes marcas ou [para] pessoas influentes, que ressoam com a mensagem que diz: ‘Temos que fazer melhor. Podemos fazer melhor’”, disse a irmã Dew.
De braços dados com outros crentes
A irmã Dew encerrou contando uma história sobre uma visita ao Vaticano em um verão, há vários anos. Enquanto estava lá, ela teve o prazer de se sentar ao lado da irmã Patricia Murray durante o jantar.
Conhecida como “irmã Pat” entre os católicos, a irlandesa, agora com 76 anos, é por vezes chamada de “a mulher mais influente na Igreja Católica”, disse a irmã Dew. Irmã Pat é atualmente secretária executiva da International Union of Superiors General [União Internacional de Superioras Gerais – em inglês], uma organização católica que representa cerca de 600 mil irmãs e freiras de 80 países em todo o mundo.
A irmã Dew disse que no final da conversa “encantadora”, a irmã Pat lhe perguntou: “Quem imaginaria que teríamos tanto em comum?”
A irmã Dew respondeu reconhecendo que, embora nenhuma delas provavelmente se convertesse à religião da outra, elas tinham algo em comum muito maior do que qualquer uma de suas diferenças.
“E isso significa que ambas nos sentimos responsáveis perante Deus... Para nós duas, acreditamos que Jesus Cristo faz toda a diferença em nossa vida”, disse a irmã Dew.
Ela disse que os santos dos últimos dias precisam ter “uma profunda disposição” para falar sobre o que é mais importante para eles. Isto vai além de pregar o evangelho de forma convincente; significa dar as mãos a outros crentes, quaisquer que sejam as suas religiões específicas, e encontrar força na fé de cada um.
“Seja a nossa pequena organização tentando influenciar a Forbes, ou qualquer um de nós tentando influenciar os outros pela forma como vivemos, pelo que publicamos on-line... ou pelo que fazemos em nosso círculo de influência, me parece que isso cabe a todos nós... descobrir como falar sobre [religião] de uma forma que seja natural e convidativa”, disse a irmã Dew.
