Nota do editor: Esta é a primeira de uma série de três partes do programa “Living Record: A Church News Documentary Series” [Registro Vivo: Uma série documental do Church News – em inglês], exibido no canal da BYUtv, intitulado “Voices for Faith” [Vozes pela Fé]. A parte 1 examina as ameaças à defesa da liberdade religiosa por meio de histórias pessoais e debates com especialistas. A parte 2 explora diferentes abordagens à liberdade religiosa, também por meio de histórias pessoais e debates com especialistas. A parte 3 destaca o poder do trabalho conjunto em prol da liberdade religiosa, por meio de histórias de fé.
Em 14 de junho de 1989, o governo de Gana proibiu todas as atividades de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias no país.
Naquele dia, policiais e soldados armados com metralhadoras invadiram a sede da Missão Gana Acra e ordenaram que todos saíssem. Emelia Ahadjie, secretária da missão, decidiu corajosamente ficar.
“Mantive-me firme, como Ester nos tempos antigos, e disse: ‘Se perecer, pereci’ (Ester 4:16)”, disse ela. “Quando abriram a porta, eles ficaram furiosos. ‘Mandamos vocês irem embora, e vocês ainda estão aqui.’ Eu estava com medo. E se eles atirassem em mim? E se me batessem? Eu olhava diretamente em seus olhos, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto, mas depois de fazer uma oração silenciosa em meu coração, consegui reunir coragem e lhes disse: ‘Estou aqui por causa de vocês; se todos nós formos embora, com quem vocês vão falar?’”

Seu marido, o presidente Richard Ahadjie, que na época era presidente do Ramo Koforidua, foi até a casa da missão, mas não teve permissão para entrar. Ele viu o presidente da Missão Gana Acra, Gilbert Petramalo, cercado por soldados. Richard Ahadjie tentou voltar para casa, mas foi detido, levado à delegacia e colocado em uma cela.
“Disseram que precisavam registrar meu depoimento. ‘O que vocês realmente fazem na sua Igreja?’”, disse Ahadjie, que foi liberado, mas instruído a retornar à delegacia diariamente enquanto a polícia investigava a Igreja. “Senti-me tão mal ao pensar que, por meio da adoração a nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, alguém pudesse acabar em uma delegacia dessa forma.”
Missionários estrangeiros foram mandados de volta para casa, as capelas foram trancadas e os santos dos últimos dias foram proibidos de se reunirem para adoração. Durante o ano e meio seguinte, os membros só puderam realizar reuniões em suas casas.

Para os santos em Gana, esse período ficou conhecido como “The Freeze” [O congelamento - em inglês].
Refletindo sobre a experiência, Emmanuel A. Kissi, que serviu como presidente interino da Missão Gana Acra de 1989 a 1991, disse: “Por que não deveríamos ser livres para servir a Deus?”
O congelamento está entre as várias histórias que destacam a importância e o valor da liberdade religiosa nesta série documental do Church News, intitulada “Voices for Faith” [Vozes pela Fé - em inglês] e exibida no canal da BYUtv. O primeiro episódio [em inglês] foi ao ar em abril de 2026.
‘Seguindo em frente com fé’
O período de congelamento ocorreu de 14 de junho de 1989 a 30 de novembro de 1990. Durante esse tempo, Richard e Emelia Ahadjie contaram que um membro de sua ala possuía uma fazenda na floresta. Eles acordavam antes das 4 da manhã e caminhavam quilômetros para realizarem uma pequena reunião sacramental na floresta todos os domingos.
“Quando chegávamos aqui, estávamos exaustos, mas o sacramento já havia sido preparado, e víamos nossos irmãos sentados, a alegria e a felicidade retornavam, e percebíamos que, sim, estávamos fazendo o que o Senhor esperava que fizéssemos como líderes da Igreja e também como santos”, disse Richard Ahadjie.

Ahadjie acrescentou: “O Senhor se lembra de Seus filhos e, por isso, providenciou um lugar para que continuássemos com nossa adoração. Estamos seguindo em frente com fé.”
Ao mesmo tempo, os membros oraram para que o governo suspendesse as restrições, permitindo que a Igreja retomasse suas atividades normais.
Emelia Ahadjie teve permissão para entrar no escritório da missão porque era a única que ainda sabia usar a máquina de telex, que estava conectada a uma central telefônica exclusiva. Ela era capaz de imprimir rapidamente mensagens de texto da sede da Igreja em Salt Lake City ou da sede da Área Europa na Alemanha.
Ela manteve o diálogo aberto entre o governo, os líderes locais da Igreja e os líderes gerais da Igreja no exterior, incluindo o presidente da Área Europa, Élder Richard P. Lindsay, e seus conselheiros, Élder Alexander B. Morrison e Élder Robert E. Sackley.
Devido à diferença de fuso horário, Emelia Ahadjie disse que dormia no escritório, sobre as mesas. “Era muito desconfortável”, disse ela, mas “o diálogo continuou, e continuou e não tinha fim.”

O governo temia que os membros da Igreja pudessem se revoltar, mas eles cumpriram as leis, disse Prince Ankrah, historiador da Área África Oeste da Igreja.
Por fim, o governo reconheceu que havia sido mal informado sobre as atividades e operações da Igreja.
“Alguém, por precipitação, tomou uma decisão drástica e tudo isso aconteceu. Havia evidências empíricas para o governo de que era exatamente o que eles diziam, mas era exatamente isto que a Igreja estava fazendo. O governo nos ouviu atentamente e, assim, conseguimos responder a todas as suas perguntas por inteiro”, disse Emelia Ahadjie.
Em 30 de novembro de 1990, o governo de Gana anunciou o fim do congelamento.
“Os membros foram obedientes”, disse Emelia Ahadjie. “Esperamos no Senhor e, no tempo certo, Ele fez com que todas as coisas fossem belas.”
Os membros retornaram à Igreja “com lágrimas de alegria e gratidão ao Pai Celestial por ter ouvido nossas orações”, disse Flint Mensah, um santo dos últimos dias que vivenciou o congelamento.

Os membros observaram que o congelamento serviu, inesperadamente, como uma ferramenta missionária. Muitas pessoas ficaram curiosas para aprenderem mais sobre a Igreja. A frequência às reuniões aumentou em 120%, disse Emelia Ahadjie, e novas congregações foram organizadas.
O congelamento ensinou aos santos dos últimos dias de Gana sobre o valor da liberdade religiosa e por que ela é importante.
“A liberdade religiosa é muito, muito importante. É necessária para todo ser humano. Ela nos permite entender uns aos outros”, disse Ankrah.
Mensah afirmou que a liberdade religiosa deve ser protegida.
“Jamais imaginei que um dia me tirariam o privilégio de adorar o Todo-Poderoso”, disse ele. “Essa experiência me ensinou a importância da liberdade religiosa.”
Emelia Ahadjie disse: “Se nos for concedida a liberdade religiosa, saberemos qual é o nosso propósito como seres humanos na Terra.”
Richard Ahadjie acrescentou: “Nosso Pai Celestial quer que sejamos livres em todas as coisas. Precisamos estar conscientes e ser responsáveis, porque a liberdade religiosa importa.”

Reflexões sobre a liberdade religiosa
A primeira parte de “Vozes pela Fé” apresentou uma discussão com líderes religiosos e acadêmicos sobre a importância da liberdade religiosa.
Élder Quentin L. Cook, do Quórum dos Doze Apóstolos da Igreja, disse que a liberdade religiosa não está relacionada ao poder, mas sim à fé.
“Trata-se daquilo em que você acredita, permitindo que todos tenham este relacionamento com Deus e sua fé, o que lhes permite ser quem eles acham que deveriam ser”, disse ele.

G. Marcus Cole, decano e professor de Direito da Universidade de Notre Dame, afirmou: “Existe uma ideia equivocada de que a liberdade religiosa se resume a permitir que pessoas de fé dominem outras pessoas ou a criar uma estrutura legal que imponha sua fé a outros. Esta concepção de liberdade religiosa levou ao que chamamos de guerras culturais.”
Asma T. Uddin, autora, advogada e professora assistente de Direito na Universidade de Michigan State, disse: “Creio que algumas dessas complexidades podem ser assustadoras e intimidantes, até mesmo para os defensores mais fervorosos da liberdade religiosa, o que é exatamente a realidade no dia a dia.”
O reverendo Amos C. Brown, pastor emérito da Terceira Igreja Batista de San Francisco, Califórnia, disse: “A liberdade é um direito humano, mas, para que essa liberdade tenha integridade, para que tenha autenticidade, deve haver responsabilidade. Não se pode ter liberdade e usá-la de forma irresponsável.”
Defendendo outras pessoas
Criada em um lar “tumultuado”, a rabina Diana Gerson disse que costumava frequentar a sinagoga local regularmente.
“A sinagoga realmente se tornou, para mim, meu refúgio”, disse ela. “Sentada parcialmente sob a ner tamid, aquela luz eterna, ter minhas próprias conversas pessoais com Deus. Que dádiva incrível. A porta não estava trancada, e uma criança de 5 anos, sentindo a necessidade de se conectar com algo maior e mais grandioso, de trazer seus problemas ou perguntas, estava ali. Era tão acessível.”

A liberdade religiosa pode sempre ser levada longe demais e, geralmente, é aí que ela diminui a voz ou a prática de outra pessoa, disse a Rabina Gerson, que atua como vice-presidente executiva associada do Conselho de Rabinos de Nova York.
“Acho que corremos o risco de, quando levantamos a bandeira da liberdade religiosa, usá-la às vezes para discriminar os outros”, disse ela. “Pode uma lei reger de acordo com a fé e a crença de todos? Eu digo que não, porque sempre haverá alguém cuja crença e prática religiosas serão infringidas de uma ou outra forma.”
A rabina acredita que quando alguém tenta fechar a igreja, mesquita ou templo de outra pessoa, indivíduos, grupos e comunidades devem se manifestar em resposta.
“Precisamos nos sacrificar por eles”, disse ela. “Compartilhem o pão com as pessoas. Sentem-se à mesa uns com os outros. Não se retraiam. Não mudem quem vocês são. Dentro de cada ser humano, existe uma luz divina. Somos feitos, criados à imagem de Deus, é isso que o judaísmo ensina. Encontrem o seu caminho e haverá alguém para caminhar com vocês.”
‘Apenas uma geração’
Robert P. George foi o primeiro de sua família a frequentar a universidade.
Atualmente, ele é professor titular da Cátedra McCormick de jurisprudência e diretor do programa James Madison sobre Ideais e Instituições Americanas, na Universidade de Princeton.
Em sua vida profissional, George foi “abençoado e honrado” com inúmeras oportunidades de serviço público, incluindo sua atuação como presidente da Comissão dos EUA para a Liberdade Religiosa Internacional, na qual se concentrou na perseguição a minorias religiosas.
Embora os americanos sejam privilegiados com a liberdade religiosa, George observou que 75% da população mundial vive sob regimes que não respeitam plenamente a liberdade religiosa, e alguns regimes perseguem “cruelmente” as minorias religiosas.
“É uma bênção inestimável viver nos Estados Unidos, onde podemos chegar às nossas próprias conclusões. As conclusões não nos são impostas pelo governo ou por qualquer outro poder, e onde podemos viver fielmente de acordo com as nossas crenças, podemos praticar a nossa religião, e é por isso que temos de combater estes ataques à liberdade religiosa”, disse ele.
“É um clichê, mas é um clichê verdadeiro: estamos sempre a apenas uma geração da perda da liberdade. Ela não se torna uma máquina que funciona sozinha. Cada geração deve protegê-la, preservá-la e transmiti-la à próxima geração.”
2 séries anteriores de ‘Registro Vivo’
“Vozes pela Fé” é a terceira série em três partes produzida por “Registro Vivo: Uma série documental do Church News” [ambos em inglês] para a BYUtv.
No início deste ano, a primeira série, “Harvest of Faith” [Colheita de Fé], apresentou as fazendas de bem-estar da Igreja, as instalações de processamento e distribuição de alimentos e a AgReserves, um braço de investimentos da Igreja.
A série seguinte foi intitulada “People of Faith” [Pessoas de Fé], que apresentou as histórias de pioneiros santos dos últimos dias no Brasil, Havaí e Filipinas.

