de Nota do editor: Este é o segundo episódio de uma série de três partes de “Living Record: A Church News Documentary Series” [Registro Vivo: Uma série documental do Church News – em inglês], exibida no canal da BYUtv, intitulada “Voices for Faith” [Vozes pela Fé]. A parte 1 examina as ameaças à defesa da liberdade religiosa por meio de histórias pessoais e debates com especialistas. A parte 2 explora diferentes abordagens à liberdade religiosa, também por meio de histórias pessoais e de debates com especialistas. A parte 3 destaca o poder do trabalho em conjunto pela liberdade religiosa, por meio de histórias de fé.
Em junho de 2023, Kori Porter foi uma das palestrantes convidadas para a 10ª Revisão Anual da Liberdade Religiosa, realizada no Centro de Conferências da BYU em Provo, Utah.
Fundadora e CEO da Peacemakers Coalition [em inglês] e ex-ministra universitária por 13 anos, Porter contrastou suas próprias provações e jornada de fé pessoal em um país com liberdade religiosa, com as de uma jovem africana que não a possui.
“A liberdade religiosa não é apenas algo sobre o qual falamos”, disse ela naquela ocasião. “Não é apenas acadêmico, não é apenas uma armadilha política, mas é um direito fundamental que todos os humanos devem ser capazes de exercer.”

Para os presentes, teria sido difícil acreditar que a mulher confiante e segura de si que viam já havia lutado contra o vício em drogas e sido expulsa do ensino médio, antes de um despertar espiritual que a colocou no caminho da defesa e do serviço ao próximo.
A história de Porter é uma das várias apresentadas na parte 2 da série documental do Church News, intitulada “Voices for Faith” [Vozes pela Fé - em inglês] e exibida no canal da BYUtv. Essas histórias destacam diversas abordagens para encontrar soluções que preservem a liberdade religiosa. O segundo episódio [em inglês] da série foi ao ar em abril de 2026.
Moldando mentes e almas
Criada em Oxford, Mississippi, Porter mostrou talento como atleta, competindo nas provas de 100 e 200 metros, bem como no arremesso de peso e no lançamento de disco.
“Eu era muito boa”, disse ela, “cheguei ao [campeonato] estadual várias vezes. Só que eu sempre me metia em encrenca.”

Andar com más companhias levou Porter a fazer escolhas ruins, o que resultou em notas baixas e uso de drogas. Ela foi expulsa da escola e sua mãe a enviou para morar com seu pai biológico em Cleveland, Ohio.
O comportamento de Porter não melhorou. Certa noite, após uma briga com o pai, ela se viu descalça em meio a uma nevasca, com apenas o celular.
“Eu tinha chegado ao fundo do poço”, disse ela.
Naquele momento difícil, Porter se lembrou de quando era menina e ia à igreja com sua avó cristã, que levantava a mão e clamava a Jesus. A lembrança a levou a orar a Deus pedindo ajuda.
“Acho que essa experiência foi uma graça de Deus para mim, porque a única maneira que eu conhecia de pedir ajuda era me lembrar da minha avó”, disse ela. “Então foi isso que eu fiz: com frio, chorando e clamando a Deus.”
Pela primeira vez, Porter sentiu uma verdadeira paz.
“Nada havia mudado no meu ambiente, mas algo havia mudado dentro de mim”, disse ela. “O Senhor começou a se mostrar de uma maneira que eu nunca havia experimentado antes.”
Porter concluiu o ensino médio. Seu corpo se recuperou do uso de drogas e ela começou a pensar com clareza. Ela aproveitou um programa de “segunda chance” e se matriculou na Universidade do Mississippi, onde fez novos amigos e encontrou um propósito.
“Tudo mudou completamente”, disse ela. “Eu queria pertencer àquele Deus que faria algo de bom por mim.”
Como estudante universitária, Porter ficou surpresa ao descobrir que, em algumas partes do mundo, era ilegal fazer proselitismo ou compartilhar a própria fé. Essa percepção a ajudou a entender e valorizar o quanto era afortunada por poder ouvir o evangelho proclamado abertamente.
“Comecei a ver pessoas de diferentes religiões se unindo para ministrar e tentar promover a liberdade religiosa”, disse ela. “Senti que o Senhor estava me inspirando a formar a Peacemakers Coalition.”
A Peacemakers Coalition é uma organização internacional dedicada à defesa dos direitos de liberdade religiosa de indivíduos de todas as crenças.
“É muito importante que as universidades e instituições de ensino superior permitam que os alunos moldem, não apenas sua mente, mas também sua alma”, disse Porter. “A Universidade do Mississippi era um espaço onde a liberdade era concedida livremente. Isso não acontece em muitos campi. Acredito que a liberdade religiosa é fundamental na minha vida e na minha história. Sem ela, eu não teria me tornado a pessoa que sou hoje.”
Reflexões sobre a liberdade religiosa
Líderes religiosos e estudiosos concordam que o respeito mútuo por outras religiões é fundamental para todas as demais liberdades e essencial para uma sociedade unida e harmoniosa.
“Acho que as pessoas estão percebendo que a multiplicidade de crenças é realmente um benefício. Na verdade, não deveria ser uma questão política, mas sim algo que deve ser compreendido, fazer parte de nossa cultura e de nossa doutrina”, disse Élder Quentin L. Cook, do Quórum dos Doze Apóstolos de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
A Rabina Diana Gerson, que atua como vice-presidente executiva associada do Conselho de Rabinos de Nova York, disse: “Quando você caminha com Deus, você não está sozinho. Acho que é isso que realmente precisamos fazer: criar um espaço para que as pessoas sigam seus próprios caminhos. Compartilhar nossas crenças e aquilo em que acreditamos deve enriquecer nosso debate público.”
Robert P. George, professor McCormick de Jurisprudência e diretor do programa James Madison sobre Ideais e Instituições Americanas na Universidade de Princeton, disse: “Entre as grandes qualidades dos Estados Unidos está o fato de que, historicamente, pessoas de diferentes crenças têm sido capazes de viver juntas em paz, e não apenas em paz, mas com respeito mútuo.”
O Rev. Amos C. Brown, pastor emérito da Terceira Igreja Batista de San Francisco, Califórnia: “Respeito significa garantir que você veja em cada ser humano valor, dignidade e potencial.”

G. Marcus Cole, decano e professor de Direito da Universidade de Notre Dame, acrescentou: “As pessoas falam sobre liberdade de expressão ou liberdade de imprensa, mas quem se importa com o que você diz se não acredita no que diz? A liberdade de crença é a liberdade fundamental sobre a qual todas as outras liberdades se apoiam. Se não a temos, não temos nada.”
‘Sou um Sikh’
Na fé sikh, manter a barba longa e o cabelo sem cortar são símbolos sagrados que representam um compromisso com o modo de vida sikh.
Quando Simratpal “Simmer” Singh ingressou na Academia Militar dos Estados Unidos em West Point, Nova York, em 2006, ele foi obrigado a cortar o cabelo e fazer a barba.

Singh ficou devastado e se lembra de ter questionado se ainda era membro da fé sikh.
“Lembro-me de que meu cabelo caía e eu pensava: ‘Não acredito que esse é o meu cabelo, e não acredito que estou traindo e violando todas as minhas crenças e valores’”, disse ele. “É só um corte de cabelo normal, mas, essencialmente, sou eu dizendo que os valores sikhs nos quais acreditei por 18 anos não eram válidos.”
Singh começou a colaborar com o Becket Fund e conseguiu garantir direitos históricos de liberdade religiosa para os sikhs, permitindo que eles servissem usando turbantes e mantendo suas barbas e cabelos compridos. Receber uma acomodação permanente foi uma sensação “surreal”, disse ele.

“Liberdade religiosa significa que cada indivíduo tem a oportunidade de praticar sua fé como achar melhor, desde que não impeça ninguém de exercer sua liberdade. … Liberdade religiosa significa que as pessoas serão inspiradas e se tornarão indivíduos melhores, membros melhores da sociedade”, disse Singh, que foi promovido ao posto de Tenente-Coronel em 2025.
“Poder expressar abertamente, por meio dos meus artigos, meus valores e minha fé, e dizer ao mundo que sou um Sikh me ajudou a me conectar com as pessoas em um nível mais genuíno. Este sou eu. Sou um Sikh e esta é a minha essência.”
Construir algo maior
Asma T. Uddin ama sua fé muçulmana, mas decidiu parar de usar o véu porque isso lhe causava um grande incômodo e medo em público.
“Esse tipo de medo em relação ao Islã e aos muçulmanos levou, infelizmente, a muitos esforços coordenados para limitar o direito dos muçulmanos à liberdade religiosa”, disse ela.

As experiências de Uddin como muçulmana foram muito diferentes das de seus pais. Eles não tiveram que lidar com a vida após os atentados de 11 de setembro de 2001. Ela teve.
“Sair de uma comunidade religiosa relativamente obscura para estar no centro das atenções foi algo com que lidei e que constituiu, de certa forma, o cerne da minha experiência na defesa da liberdade religiosa”, disse ela.
Uddin é autora, advogada e professora assistente de Direito na Universidade de Michigan State. Na parte 2 da série, ela também atua como professora assistente visitante de Direito na Faculdade de Direito de Columbus da Universidade Católica da América, o que se alinha ao seu interesse e ao seu trabalho na interseção entre as relações muçulmano-cristãs.
Uddin relatou um caso de 2010 em que o Centro Islâmico de Murfreesboro, no Tennessee, enfrentou forte oposição e sentimentos antimulçulmanos ao solicitar uma licença de uso de terreno. Embora o centro tenha sido inaugurado em 2012, enfrentou constantes contestações judiciais até 2014, quando a Suprema Corte dos EUA se recusou a analisar o caso [em inglês].
“Liberdade religiosa para alguns não significa liberdade religiosa para ninguém. A ideia é que, se você for seletivo em relação a quem concede esses direitos, acabará destruindo os direitos de todos”, disse ela.
Sua carreira na área da liberdade religiosa começou no Becket Fund for Religious Liberty [em inglês], uma organização sem fins lucrativos de interesse público em Washington, D.C., que defende a liberdade religiosa para todas as crenças.
“Mas acho que, para realmente protegê-la de uma forma sincera, substancial e significativa, é preciso compreender profundamente os tipos de crenças religiosas e as motivações por trás dessas crenças porque, no final das contas, fomos feitos para algo maior.”
‘Amor e respeito pelos outros’
Na Faculdade de Direito da Universidade de Notre Dame, Cole afirma que os alunos aprendem o que significa ser um advogado “com e para os outros”. A faculdade de Direito acolhe estudantes de todas as culturas e origens, incluindo judeus ortodoxos, muçulmanos e ateus, todos os quais compartilham o apreço pela missão católica da universidade.
“A verdadeira liberdade religiosa tem a ver com o amor e o respeito ao próximo”, disse ele. “Por isso, fundei uma clínica jurídica dedicada à liberdade religiosa.”
The Lindsay and Matt Moroun Religious Liberty Clinic [Clínica de liberdade religiosa Lindsay e Matt Moroun – em inglês] oferece aos alunos a oportunidade de aprenderem a profissão de advogado, representando clientes reais em casos reais relacionados às suas liberdades religiosas, disse John Meiser, diretor da clínica.
“Sem essa liberdade de crer, a liberdade de agir, a liberdade de exercer suas crenças religiosas, você fica realmente privado da capacidade de ser quem você é como ser humano”, disse Meredith Holland Kessler, advogada da clínica.
Cole afirmou que um dos casos de maior repercussão envolveu a clínica que representava indígenas cujas terras sagradas estavam ameaçadas por interesses da mineração de cobre. Uma equipe jurídica estudantil composta por católicos, ateus, muçulmanos e membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias trabalhou em conjunto para defender o direito dos indígenas de praticarem sua religião em suas terras sagradas.
“Deus abençoe a América”, disse ele. “É exatamente isso que queremos, e é exatamente isso que somos.”
2 edições anteriores da série ‘Registro Vivo’
“Vozes pela Fé” é a terceira série em três partes produzida por “Registro Vivo: Uma série documental do Church News” [ambos em inglês] para a BYUtv.
No início deste ano, a primeira série, “Harvest of Faith” [Colheita de Fé], apresentou um olhar sobre as fazendas de bem-estar da Igreja, as instalações de processamento e distribuição de alimentos e a AgReserves, um braço de investimentos da Igreja.
A série seguinte foi intitulada “People of Faith” [Pessoas de Fé], que apresentou as histórias de pioneiros santos dos últimos dias no Brasil, Havaí e Filipinas.

